Artigo de Marcus Vinícius Bald, jornalista, mestre em Engenharia de Mídia e criador da marca Compol

A sucessão de 2026 chega a Santa Catarina com um ingrediente novo. Pela primeira vez, a inteligência artificial entra em campo, ora como apoio de bastidor para segmentação e produção em escala, ora como objeto de regulação rígida do TSE.
Quatro nomes concentram, hoje, as principais articulações. Jorginho Mello (PL), candidato à reeleição. Gelson Merísio (PSB), à frente de uma chapa que reúne PT, PDT e PSOL em torno do projeto de Lula no estado. João Rodrigues (PSD), que renunciou à prefeitura de Chapecó em março para se dedicar à pré-campanha. E Marcelo Brigadeiro (Missão), nome de origem MBL.
Vale o registro: o que segue é projeção analítica, leitura a partir do que cada pré-candidato já sinalizou em palanque, em entrevista e nas próprias redes.
A Lei Seca da IA
Em março, o TSE aprovou a Resolução nº 23.755. Todo conteúdo eleitoral feito ou alterado por IA precisa exibir aviso de que é sintético. Nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 posteriores, fica proibido publicar ou impulsionar peça nova com voz ou imagem de candidato gerada por IA, mesmo rotulada. A multa vai de R$ 5 mil a R$ 30 mil.
O que será comum a todas as campanhas
Vídeos curtos serão a moeda principal. Peças de 30 a 60 segundos, com gancho nos três primeiros e pedido direto de voto no fim.
Segmentação por bairro, idade e interesse, com a mesma proposta gravada em quatro versões diferentes para o agricultor do Oeste, o industrial de Joinville e o servidor da Grande Florianópolis. É aqui que a IA aparece silenciosamente nos bastidores.
Comunidades fechadas no WhatsApp para distribuir material e neutralizar boatos. E o fim da fronteira entre rua e rede: caminhada vira live, comício vira corte, QR code leva ao Instagram do andidato.
Jorginho Mello: continuidade e palanque nacional
O atual governador parte com a vantagem de quem governa. Tem obra, tem máquina, tem agenda. A aposta digital deve ir em duas direções. Mostrar entrega, com vídeos de obras e contraposições de “antes e depois”. E costurar com o palanque bolsonarista nacional. Carlos Bolsonaro candidato ao Senado e Flávio na disputa presidencial pelo PL devem render conteúdo cruzado em larga escala.
A comunicação digital do governador já é uma das mais bem azeitadas do estado. Adriano Silva (Novo) na vice agrega menos no aspecto comunicacional e mais no estratégico, com peso em Joinville e diálogo com o empresariado. O risco da chapa não está na comunicação. Está em equilibrar a postura institucional com a agilidade que campanha exige.
Gelson Merísio: contraponto e frente ampla
Merísio carrega uma trajetória peculiar. Construiu-se na centro-direita, apoiou Bolsonaro em 2018 e migrou para o campo lulista a partir de 2022. Encabeça chapa com Ângela Albino (PDT) na vice e Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) ao Senado.
Foi o primeiro a dar a largada com cara de campanha majoritária. O movimento foi analisado pelo colunista Marcello Natale, no portal Upiara: vídeo com plataforma, estética e narrativa de candidatura nacional, posicionando Merísio como o nome de Lula em Santa Catarina.
A estratégia digital deve ter dois eixos principais. Um, o posicionamento como alternativa ao governo Jorginho, com comparações entre as entregas do governo federal em SC e o que o estado deixou de aproveitar. Outro, o acoplamento com Lula. O desafio é a coerência: o adversário vai explorar sua trajetória, e a campanha precisará dar conta dela em vez de tentar escondê-la.
João Rodrigues: o gestor que sabe falar
João Rodrigues sabe se comunicar. Empresário, ex-radialista, prefeito reeleito várias vezes em Chapecó, ele se sai bem diante de câmera, vantagem rara para quem vem do interior.
Mas o trunfo agora vai além do estilo. Em março, fechou aliança com MDB e a Federação União Progressista (PP e União Brasil). O MDB indica o vice. Esperidião Amin vai ao Senado pelo PP em candidatura única da coligação. É a primeira costura que tira do caminho de Jorginho um pedaço relevante da centro-direita catarinense, com sete ex-governadores no apoio.
No digital, espere comparações entre Chapecó e o estado, falas a câmera e transmissões diretas das visitas. A armadilha é óbvia: comparar gestão municipal com gestão estadual cria flancos que adversários vão explorar. O risco maior, porém, é outro. Rodrigues ainda é nome menos conhecido na Grande Florianópolis e no Vale do Itajaí, e a campanha precisará resolver isso antes de qualquer outra coisa.
Marcelo Brigadeiro: guerrilha digital
A candidatura de Brigadeiro pelo Missão, partido criado em 2025 a partir do MBL, é a mais radicalmente digital da disputa. Sem tempo expressivo de TV e sem máquina partidária, ele tem pouca alternativa que não seja apostar tudo na rede.
A estratégia provável é a da guerrilha digital, cartilha que o MBL aperfeiçoou ao longo da década:
cortes rápidos, debates inflamados, oposição como espetáculo. Brigadeiro deve usar a biografia como narrativa de outsider e investir em canais próprios como Telegram e listas de WhatsApp para ficar menos refém de algoritmo.
O ativo principal é o eleitor como cabo eleitoral, replicando conteúdo em grupos de família, vizinhança e trabalho. O teste será saber se o núcleo militante é suficiente para tirá-lo do nicho.
O que está em jogo
A eleição catarinense de 2026 é uma das mais complexas do ciclo. Tem candidato à reeleição com palanque de Bolsonaro, frente ampla com palanque de Lula, comunicador experiente do Oeste com a centro-direita atrás e outsider de origem digital. Tem o bolsonarismo dividido na disputa pelo Senado e o desafio inédito da regulação da IA.
O tempo médio de atenção do eleitor caiu. A janela para convencer um indeciso encolheu para os
segundos finais antes do scroll.
A urna está marcada para 4 de outubro. A disputa já começou.




