23/04/2026

A menina que cortou a própria franja aos cinco anos é a primeira prefeita de Joinville

Por Sol Urrutia e Maga Stopassoli

Rejane aos cinco anos cortou a própria franja na escola. Foto: Sol Urrutia.

Na última semana, Maga Stopassoli e eu, Sol Urrutia, saímos de Florianópolis rumo a Joinville com um objetivo claro: ouvir de perto a primeira mulher a comandar a maior cidade de Santa Catarina. Naquele dia, Rejane Gambin (Novo) completava 15 dias como prefeita e já imprimia seu próprio ritmo à gestão.

E demos sorte: a BR-101, naquele trecho, até que estava de bom humor. Fizemos o trajeto de ida em cerca de três horas.

Rejane: de vice a prefeita efetiva no cargo

Desde que colocamos os pés no gabinete percebemos um toque feminino no local. A sala estava repleta de flores, velas aromáticas e cartões com mensagens de parabéns pela posse, todos devidamente guardados em uma caixa especial. Um ambiente que diz muito sobre quem chegou ali e sobre como pretende governar.

Entre os porta-retratos espalhados, Rejane destaca uma imagem simbólica: uma foto dela que, ainda criança, cortou a própria franja como um gesto de coragem. É dessa memória que ela parte para falar de liderança, enfrentamento e do lugar das mulheres.

Durante os quase sete anos como vice de Adriano Silva (Novo), ela assumiu 15 vezes o cargo de líder do executivo municipal de modo interino e desde o dia 2 de abril a função é oficial. Ter uma mulher em um cargo que sempre foi dos homens é diferente, embora os desafios sejam os mesmos. 

Na conversa, a prefeita falou sobre a sua trajetória, desafios, prioridades e política. Ela também deixou claro que, além das obras, essenciais em qualquer gestão, sua atenção está voltada às pessoas. Ouvir, acolher, entender as dores reais de quem vive a cidade.

Ela também não se coloca em um lugar à parte por ser mulher. Rejane reconhece que enfrenta os mesmos desafios de qualquer gestor, homens ou mulheres, e disse que é com esse sentimento de responsabilidade e serviço que pretende conduzir o mandato. A diferença, talvez, esteja no simbolismo. Ao ocupar esse espaço, abre caminho para que outras mulheres também se vejam ali. 

A seguir, os principais trechos da entrevista em formato ping-pong.

Como nasceu a decisão de entrar na política?

Eu nunca quis entrar pra política. Mas quando entendi que poderia levar para dentro da prefeitura as dores que eu via como jornalista, isso passou a fazer sentido. É sobre melhorar a vida das pessoas. 

Ser mulher fez diferença na trajetória?
Foi na prefeitura que vivi o preconceito pela primeira vez. Em reuniões, eu falava e não olhavam pra mim, como se eu fosse invisível. Até eu bater na mesa e dizer: eu sei do que estou falando. 

O que passou pela sua cabeça na posse?
Tem uma quebra histórica. Tem meninas que passam a se ver nesse lugar. Se eu não me emocionasse, não devia estar aqui. 

Qual o impacto de uma mulher neste cargo?
Não é sobre o poder. É sobre o que isso significa na vida das mulheres. Talvez, lá na ponta, uma mulher deixe de aceitar uma violência porque viu que pode ocupar esse lugar. 

Qual é a sua visão de política hoje?
A política precisa ser um lugar de serviço. Quem vem pra cá tem que vir pra melhorar a vida das pessoas. 

Como conciliar vida pessoal e cargo público?
Eu nunca me arrependi. Valeu a pena cada segundo. Eu tento compensar: às vezes estou cansada, mas vou buscar meu neto Miguel na escola.

A prefeita ajusta a agenda para buscar o neto Miguel na escola. O menino é um dos “testadores” de parques no município. Foto: arquivo pessoal Rejane Gambin.

Que cidade você quer construir?
Uma cidade para as pessoas. Que cada cidadão se sinta único, ouvido. 

O que falta para mais mulheres chegarem à política?
Não é só cota. É consciência. As mulheres precisam entender que esse lugar também é delas. 

Um recado para outras mulheres?
Eu não quero ser a primeira e única. Quero que mais mulheres venham. Esse lugar também é nosso.

Em 175 anos de história pela primeira vez a foto de uma mulher vai para a galeria dos prefeitos de Joinville. Foto: Monique Margô

Para além das palavras

Entre as obras previstas para os dois anos que ainda restam de mandato, Rejane destacou entregas recentes como um centro de educação infantil especializado em atendimento de crianças com transtorno de espectro autista e a obra da nova Ponte de Joinville, onde fez questão de nos levar para conhecer. A estrutura é aguardada há décadas pelos joinvillenses e foi iniciada ainda na gestão de Adriano Silva (Novo)  que recentemente deixou a prefeitura para disputar como vice-governador na chapa de Jorginho Mello (PL).

A Ponte Joinville é a maior obra de mobilidade urbana da cidade, com 980 metros de extensão, conectando o bairro Adhemar Garcia (zona sul) ao Boa Vista (zona leste) sobre o Rio Cachoeira. Com investimento de cerca de R$329 milhões, a obra tem previsão de entrega para dezembro de 2027. Considerada uma das mais importantes obras da história recente do município, a ponte é carregada de simbolismo, já que deverá ser inaugurada pela primeira prefeita mulher da cidade que completou 175 anos em 2026.

Polo Pertencer – Dentre outros projetos, fomos conhecer o Polo Pertencer, um espaço voltado ao atendimento de alunos com deficiências e transtornos do espectro autista que exigem suporte substancial. E foi nesse espaço que conhecemos a história do Nicolas, um menino autista que aos 12 anos com apoio do projeto aprendeu a escrever e que agora pode ter um melhor convívio social. É sobre isso. Foto: Divulgação.
Rejane guarda no gabinete as mensagens que recebeu ao assumir como prefeita no dia 2 de abril, além da agenda do Portal Upiara que utiliza para anotações importantes. Foto: Sol Urrutia.
Registro da entrevista exclusiva, no último dia 16 de abril, em Joinville.

FIM

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