Artigo de Yolanda Silva, Corretora de Imóveis e pré-candidata a deputada estadual

A Lei Rouanet se transformou, ao longo dos anos, em um dos temas mais atacados no debate público brasileiro. Para muitos setores da direita, ela virou sinônimo de privilégio, desperdício e favorecimento ideológico. Mas essa crítica, embora popular, quase nunca enfrenta o problema real. E o problema existe e não é pequeno.
A direita passa tempo apontando o dedo e criticando a cultura. Mas não existe como vencer a cultura xingando a cultura. Espaço não se ocupa com ataque. A direita precisa parar de atacar e começar a produzir cultura. Porque a verdade é simples: o problema não é a lei. O problema é o mecanismo.
A Lei Rouanet permite que empresas, ao invés de pagarem parte dos seus impostos diretamente ao governo, direcionem esse valor para projetos culturais. Em alguns casos, com dedução de até 100% (artigo 18), e em outros, cerca de 40% (artigo 26). Ou seja, quem decide, na prática, para onde o dinheiro vai, são as empresa e empresas buscam visibilidade. É exatamente aí que começa a distorção.
O dinheiro acaba indo para projetos grandes, nomes conhecidos, artistas que já têm público, mídia e retorno garantido. Para a empresa, isso é mais seguro. É investimento com visibilidade. E assim se forma um ciclo, uma espécie de panelinha: sempre os mesmos artistas, sempre os mesmos projetos, sempre os mesmos sendo patrocinados, enquanto o artista pequeno continua invisível, sem acesso, sem oportunidade e sem espaço.
E essa é a parte que quase ninguém quer encarar.
Eu não falo isso de fora. Como atriz e DJ, eu vivi isso. Sei o que é não ter dinheiro para começar, não conseguir comprar um instrumento, não conseguir montar um espetáculo. É exatamente aí que a lei deveria entrar como um empurrão inicial para quem quer comprar um violino, gravar o primeiro álbum, montar uma orquestra, um espetáculo, um projeto cultural verdadeiro. Depois disso, o caminho é do artista. Quando ele já tem material na mão, já conquistou reconhecimento e tem público, não deveria mais precisar utilizar a Lei Rouanet.
Mas não é isso que acontece.
O que acontece é que artistas que já têm fama, dinheiro e estrutura continuam utilizando o mecanismo repetidamente. E não porque precisam, mas porque já estão dentro do sistema. E muitas vezes esses artistas já não conseguem mais lotar seus shows como antes. Os espaços começam a esvaziar, o público diminui e, sem a Lei Rouanet, muitos desses projetos já não se sustentariam o que faz com que recorram novamente ao mecanismo, mantendo o ciclo ativo.
E o sistema se protege. Se fecha. Não deixa novos artistas entrarem.
Porque existe medo: medo de perder espaço, medo de perder o holofote, medo de novos talentos surgirem muitas vezes com mais qualidade, mais verdade e mais conexão com o público. E aí a cultura começa a se repetir. As mesmas músicas, os mesmos nomes, enquanto talentos reais ficam invisíveis.
Eu vi isso acontecer de perto. Conheci projetos bons de verdade que nunca saíram do papel. Um exemplo claro foi de um colega e amigo do meio artístico, Carlos Sabugo, diretor de cinema e dublê de ação, um dos pioneiros no trabalho com dublês no Brasil. Ele escreveu o projeto “O Presídio Carandiru – A Outra Versão”, inspirado no episódio do Massacre do Carandiru.
A proposta era justamente mostrar o que não foi contado: o lado dos policiais, o que eles viveram, o que enfrentaram, o que sentiram naquele momento uma perspectiva que não apareceu na primeira versão conhecida pelo público. Um filme com ação, com roteiro forte, com uma visão diferente.
E não teve captação. Não teve apoio. Não teve espaço.
E não foi por falta de qualidade. Foi por não estar dentro da mesma panelinha de sempre.
Enquanto isso, os mesmos continuam captando de novo, e de novo, e de novo.
E aí vem outro erro grave: chamar artista de “vagabundo”, “encostado”, “mamador da Lei Rouanet”. Isso não resolve nada. Isso só afasta. Se ninguém gosta de ser rotulado de forma injusta, por que alguém da cultura gostaria de ser chamado de vagabundo? Você votaria em quem demoniza o seu próprio ganha-pão? A resposta é óbvia.
E, mesmo assim, esse erro continua sendo repetido, porque a cultura ainda não é levada a sério como deveria e deveria ser.
A cultura molda pensamento, influencia comportamento e constrói a forma como a sociedade enxerga o mundo. Todo mundo consome cultura, seja de direita ou de esquerda. Todo mundo ouve música, assiste filme, tem memória afetiva com novela, com entretenimento. Como demonizar algo que faz parte da vida de todo mundo?
E tem mais: as pessoas não vivem discutindo política o tempo todo. Elas estão falando de entretenimento, de reality show, de páginas de fofoca. E quando temas como racismo, comportamento e posicionamento aparecem nesses espaços, isso é política. Não partidária, mas é política. A formação de opinião começa ali.
Ignorar isso não é virtude. É erro.
Porque quem não disputa a cultura aceita ser minoria cultural, mesmo tendo votos.
Existe também um motivo claro pelo qual muitos artistas de direita não aparecem: eles têm medo. Medo de cancelamento, medo de boicote, medo de serem excluídos do próprio meio. E isso acontece porque esse espaço já foi ocupado.
A esquerda entendeu isso antes. Inspirados pela linha teórica desenvolvida a partir das ideias de Antonio Gramsci, compreenderam que a disputa real não começa nas eleições começa nas ideias, na cultura, nas mentes. Primeiro se conquista a forma de pensar das pessoas. Depois, o restante se estabelece.
E isso funcionou.
O espaço foi ocupado: universidades, escolas, pedagogia, imprensa, cinema, música, arte. E, ao longo do tempo, isso construiu algo muito mais forte do que qualquer disputa eleitoral: presença, repetição e influência.
Enquanto isso, quem despreza a cultura fica falando sozinho, dentro da própria bolha, sem alcançar quem realmente precisa ser alcançado.
Mas existe um ponto que precisa ser dito com clareza: quem financia a cultura, em grande parte, são as empresas. E muitas dessas empresas são conduzidas por pessoas alinhadas à direita.
Ou seja, não adianta apenas criticar o sistema de fora. É preciso olhar para dentro.
Porque a pergunta é inevitável: como entrar nesse espaço apontando o dedo, xingando, criticando tudo e todos?
Não se entra.
Não adianta fingir que entretenimento não importa. Não adianta só xingar. É preciso produzir, ocupar, participar e também cobrar. Cobrar de quem financia, cobrar de quem decide.
Porque são essas escolhas que mantêm sempre os mesmos artistas no topo, enquanto novos talentos continuam invisíveis.
No fim, não é só sobre criticar o sistema. É sobre participar dele, disputar espaço e abrir caminho para quem nunca teve chance.
Por isso, a discussão sobre a Lei Rouanet precisa amadurecer. O problema não é a existência da lei. O problema é como ela está sendo usada.
Hoje, o dinheiro vai para quem já tem visibilidade. E quem precisa continua invisível.
E isso precisa mudar.
A Lei Rouanet deveria ser um ponto de partida. Um impulso inicial. Um empurrão para quem está começando músicos sem instrumento, artistas de rua, projetos independentes, gente que quer produzir cultura de verdade aquela que leva ao povo princípios, tradição, valores, identidade.
Porque talento existe. E muito.
E é exatamente isso que eu gostaria de ver mudar. Criar projetos. Fortalecer artistas pequenos. Abrir espaço para novos talentos. Tirar da invisibilidade quem nunca teve chance.
O que falta é oportunidade.
E, no fim, a pergunta continua a mesma: a cultura brasileira vai continuar sendo sempre dos mesmos ou vai finalmente dar espaço para quem ainda nem teve a chance de começar?





