19/03/2026

“Tem sedução? Tem. Tem rabo? Não”

Os Enzos e Valentinas do jornalismo talvez não saibam quem é Mario Sergio Conti. Mas deveriam.

Hoje ele está na GloboNews, entrevistando figuras do poder. Mas foi no comando da Revista Veja que viveu alguns dos episódios mais decisivos da imprensa brasileira recente.

Jorge Bornhausen ministro e Fernando Collor presidente, em 1992.

Em Notícias do Planalto, lançado em 1999, Conti narra os bastidores do poder durante o governo de Fernando Collor. E os acontecimentos das últimas semanas em Santa Catarina trouxeram de volta uma passagem saborosa — e reveladora — envolvendo Jorge Konder Bornhausen.

Antes, o contexto.

O vai e vem da pré-candidatura ao Governo do prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), trouxe à cena política Jorge Konder Bornhausen, um dos personagens mais emblemáticos e poderosos da República nas décadas de 1980 e 1990.

Aos 88 anos, o Kaiser — como era chamado — parecia aposentado. Entretanto, na semana passada, após João Rodrigues dizer que não seria mais candidato caso Topázio continuasse “furando seu olho no PSD” ele voltou com tudo ao tabuleiro do jogo.

Deu uma coletiva —onde entre outros jornalistas estava Maga Stapassoli do Portal Upiara — e praticamente afirmou que Rodrigues não seria mais o candidato do PSD. Aconteceu o contrário: o prefeito de Chapecó manteve a pré-candidatura e o presidente do PSD, Eron Giordani, anunciou abertura do processo de expulsão de Topázio Neto.

Bornhausen, no dia 14, votou à imprensa e disse que na semana seguinte anunciaria seu candidato ao Governo. Os nomes estavam entre Júlio Garcis, Raimundo Colombo e Napoleão Bernardes. Colombo soube que seria ele o indicado e tratou de ir para as redes sociais enaltecer Jorge Bornhausen pela amizade, mas afirmou que o candidato do PSD era João Rodrigues.

O antigo cacique não parou com sua articulação para defenestrar João Rodrigues da candidatura. No dia 17 (terça-feira) o colunista Marcelo Lula (SC em Pauta) noticiou que Jorge Bornhausen afirmou que cobraria Rodrigues sobre uma promessa do governador Jorginho Mello (PL) oferecendo R$ 300 milhões para obras em Chapecó em troca da sua desistência.

O caldo entornou de vez. João Rodrigues cancelou sua renúncia da Prefeitura, marcada para dia 21. No mesmo dia, afirmou que mantinha a pré-candidatura após um telefonema do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.

Na manhã desta quinta, começou a circular na internet um vídeo de Jorge Bornhausen negando a história dos R$ 300 milhões. “O que procede. O que é verdadeiro. Eu sei que o governador Jorginho não prometeu nada. O governador Jorginho tem usado com precisão os recursos de Santa Catarina”.

O vídeo está lá no Instagram de seu filho Paulinho Bornhuasen, secretário do governador Jorginho Mello.

Mas qual a história do livro?

Em 1992, no auge da crise do governo Collor, Jorge Bornhausen foi seu ministro da Secretaria de Governo. Sua função era a coordenação política e tinha o objetivo claro de salvar o Governo. Mesmo com toda a sua habilidade, não teve sucesso e Collor acabou cassado.

Mas, no meio da crise, o irmão de Fernando Collor, Pedro, deu uma entrevista bombástica à revista Veja, falando de corrupção, uso de drogas e até de assedio ou insinuação sobre a cunhada, a bonitona Tereza.

Bornhausen, segundo Mario Sergio Conti, foi até a sede da editora Abril —dona da Veja — em São Paulo, conversar com Roberto Civita, o todo poderoso do grupo de comunicação.

Lá, na página 432 do livro, Conti detalha o que aconteceu e o diálogo que teve com o político catarinense:

 “Jorge Bornhausen chegou ao edifício Abril no começo da noite, acompanhado de Antônio Martins, seu assessor de Imprensa, e Mauro Salles.

Conversou brevemente com Roberto Civita. Em nenhum momento ele pediu que não se publicasse a entrevista. Quis saber o que Pedro Collor falava e o dono de Veja lhe disse que era melhor conversar comigo.

Recebi o ministro em minha sala, junto com Tales Alvarenga e Leite. Ele lamentou a crise provocada pelo irmão do presidente. Disse que o Ministério fora totalmente reformado e o governo estava recomeçando em novas bases.

Não pediu que a entrevista não fosse publicada, mas indagou se nela havia fatos graves.

— De que tipo, ministro? — perguntei.

— Por exemplo, tem corrupção?

— Tem.

— Tem drogas? — prosseguiu Bornhausen.

— Tem.

— Tem sedução?

— Tem.

— Tem rabo?

— Como, ministro?

— É, tem rabo, homossexualismo?

— Não, não tem.

Bornhausen interrompeu o questionário. Conversamos mais um pouco e ele foi embora”.

Logo depois Bornhausen, assim como o sistema político brasileiro, acabou abandonado Collor à sua própria sorte e ele acabou cassado.

Em 1994, na sucessão de Itamar Franco (que era vice de Collor), Jorge foi um dos articuladores da aliança entre o então PFL —partido que presidia em nível nacional —e o PSDB, garantindo a eleição de Fernando Henrique e Marco Maciel.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.