18/03/2026

Soja segura o superávit e diesel ameaça a margem

O agro brasileiro começou a semana com um recado claro: o Brasil exporta mais, mas ganha sob pressão.

Em fevereiro, os embarques do setor atingiram US$ 12,05 bilhões, o maior valor da série histórica para o mês, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

O saldo da balança comercial do agro passou de US$ 10,5 bilhões.

No papel, é um resultado robusto.

Na prática, é um desempenho que convive com custos em alta, margens comprimidas e um cenário internacional cada vez mais instável.

Quem segura a conta é a soja.

Soja puxa e sustenta o agro

complexo soja liderou as exportações em fevereiro, com US$ 3,78 bilhões, o equivalente a 31,4% de tudo o que o agro brasileiro vendeu ao exterior no mês.

Na sequência aparecem:

  • proteínas animais: US$ 2,7 bilhões
  • produtos florestais: US$ 1,27 bilhão
  • café: US$ 1,12 bilhão
  • complexo sucroalcooleiro: US$ 861 milhões

China segue como principal destino, com 30,5% das compras, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos.

Segundo o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o desempenho reflete a expansão da produção nacional.

“O Brasil caminha para uma safra recorde nos produtos vegetais e produção crescente nas proteínas animais, ampliando o excedente exportável.”

Ou seja: o agro continua fazendo a sua parte.

O problema está do outro lado da porteira.

Boi, algodão e trigo: mercado pede estratégia

Enquanto a soja puxa os números, outras cadeias entram na segunda quinzena de março pedindo cautela.

Análise da Markestrat Group aponta recomposição de preços em três frentes: boi gordo, algodão e trigo.

No trigo, o movimento é de valorização, impulsionado por ajustes recentes e incertezas sobre área plantada.

No algodão, o mercado acompanha o desenvolvimento da safra e o cenário internacional.

Já na pecuária, há sinal de sustentação, com menor pressão de oferta e melhora na rentabilidade do confinamento.

Mas um fator continua no radar de todos:

o custo.

E, principalmente, o diesel.

Diesel volta à pauta com atraso e pressão

O debate sobre combustível segue no centro da agenda do agro.

Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve discutir amanhã (19) o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, pauta que já deveria ter avançado e foi adiada.

A discussão ocorre em meio à escalada do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio e à pressão do setor por previsibilidade.

Hoje, a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) prevê avanço gradual da mistura até B20 em 2030.

Mas o setor já quer mais.

Segundo a AliançaBiodiesel, formada pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e pela Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), a capacidade instalada já permitiria chegar a 21,6%.

O problema não é técnico.

É decisório.

FPA liga o alerta geopolítico

A tensão internacional também entrou oficialmente na pauta política.

Na reunião-almoço de ontem, 17, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) debateu os impactos do conflito no Oriente Médio sobre o agro.

Energia, fertilizantes e logística internacional foram apontados como os principais pontos de risco.

A leitura da bancada é clara: a crise não é localizada.

É sistêmica.

FAESC pede corte de imposto sobre diesel em SC

Em Santa Catarina, o alerta virou pedido formal.

Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC) solicitou ao governo estadual a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o diesel.

O argumento é direto: o combustível já carrega uma carga tributária média de 38,4%.

Para o presidente da entidade, José Zeferino Pedrozo, o momento exige resposta imediata.

“Os efeitos desse cenário sobre os custos de produção e a atividade econômica nacional geram grande preocupação.”

A entidade defende uma redução temporária como forma de aliviar o custo logístico, conter a inflação e preservar a atividade no campo.

No fundo, é o agro dizendo ao Estado:

o problema já chegou na porteira.

Mercosul–UE: Congresso promulga acordo

No meio da turbulência, Brasília tenta avançar na agenda comercial.

O Congresso Nacional promulgou ontem, terça-feira (17), o decreto que ratifica o Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia.

O tratado prevê:

  • redução de tarifas para 91% dos produtos importados pelo Mercosul
  • e para 95% dos produtos europeus

A expectativa é que o acordo entre em vigor em até 60 dias.

No papel, é avanço.

Na prática, o agro ainda observa com cautela os impactos sobre competitividade.

Maçã catarinense vira vitrine para a agricultura familiar

Enquanto grandes temas dominam Brasília, o interior mostra outro movimento.

Cooperativa de Agricultura Familiar (CAF) Serrana, do Espírito Santo, visitou regiões produtoras de maçã em Santa Catarina para conhecer tecnologia, manejo e organização produtiva.

A agenda reforça os efeitos da Lei nº 15.226/2025, que ampliou de 30% para 45% a obrigatoriedade de compra de alimentos da agricultura familiar.

Na prática, a política pública está criando mercado.

E fortalecendo cooperativas.

Exporta mais, pressiona mais

A fotografia da semana é clara.

O agro brasileiro bate recorde de exportação.

Mas enfrenta:

  • custo logístico elevado
  • diesel pressionado
  • incerteza internacional
  • e decisões políticas ainda lentas

A soja sustenta o resultado, mas não resolve o problema.

Porque, no fim das contas, o Brasil continua fazendo muito bem o que sempre fez: produz, exporta e gera superávit.

O que ainda falta é fazer tudo isso com previsibilidade e segurança jurídica.

Boa quarta, Agroamigos!

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