16/03/2026

Por que o governador Jorginho Mello passou a adotar discurso pelo fim da reeleição

Jorginho levanta bandeira estratégica da direita em tempo de escândalos e descrédito com a política

O debate sobre o fim da reeleição voltou à mesa da política brasileira e chamou a atenção porque quem está defendendo é quem está no poder e vai para uma campanha justamente à reeleição.

Prestes a disputar um novo mandato em outubro, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, afirmou ser favorável ao fim da reeleição para cargos do Executivo. A declaração foi feita durante entrevista concedida a este jornalista, no programa Joinville em Foco, na rádio 89 FM de Joinville, no última dia 6 de março. A declaração teve repercussão nas semana passada nos principais portais do Brasil como O Globo, Estadão, Infomoney, Terra e Uol.

— Eu sou defensor já há muito tempo de que, para mim, não tinha que ter reeleição. (Devia) até estipular um limite de mandatos de deputados, até para dar oportunidade de renovar. Para o Executivo, eu nunca concordei com a possibilidade de reeleição. Se não tivesse outra eleição, o governador cumpriria o mandato único para deixar o legado — afirmou.

A declaração chama atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo contexto. Jorginho foi eleito governador em 2022 e é candidato à própria reeleição em 2026.

Jorginho não fala em vão do fim da reeleição. Ele está sintonizado com o discurso ou de uma narrativa que tomará conta da direita a partir de agora. Baseada nos escândalos do banco Master, a eleição de 2026 ganha os mesmos contornos de eleição de 2018, quando a disputa presidencial foi sufocada pelos escândalos da Petrobrás. À época potencializou o discurso antipolítico, renovação e de continuidade de mandatos.

Flávio Bolsonaro já protocolou PEC com apoio de senadores catarinenses

Senadora Ivete da Silveira (MDB) de Joinville assinou projeto de Flávio Bolsonaro pelo fim da reeleição

E a articulação já começou. No início de março, antes da declaração de Jorginho Mello para a 89 FM, o pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, já tinha dado um passo. Ele protocolou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 4/2026 que proíbe a recondução do presidente da República no mandato subsequente e cria um novo eixo de articulação dentro do Congresso Nacional. E já valendo para a partir de 2026. Por isso, a tramitação terá urgência no Congresso. O documento foi assinado por 30 senadores, entre eles a senadora Ivete da Silveira (MDB), de Joinville, e Jorge Seif (PL)

Jorginho pode ter sido o primeiro governador a levantar a bandeira que vai entrar no epicentro da discussão política nacional. Neste domingo (15), o governador do Rio Grande do Sul e pré-candidato à presidência, Eduardo Leite (PSD), também levantou o assunto em entrevista ao Canal Livre da Band.  

Jorginho aproveita onda para fidelizar eleitorado cansado da política

A possibilidade de reeleição surgiu no Brasil em 1997, durante o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso. A justificativa, à época, era permitir continuidade administrativa e estabilidade na condução de projetos de governo.

Quase três décadas depois, o modelo passou a ser questionado por diferentes correntes políticas. A crítica mais comum é que a reeleição transforma o mandato em uma longa pré-campanha, com governos frequentemente orientados por cálculos eleitorais.

Ao entrar nesse debate, Jorginho conversa como eleitorado que demonstra crescente cansaço com a política tradicional e com a lógica permanente de campanha. Defender mudanças no sistema político costuma gerar simpatia, especialmente quando aparece associado à ideia de renovação e no meio de grandes escândalos.

Narrativa é estratégia e envolve marqueteiros

Mas há também uma leitura estratégica inevitável e que tem o dedo de estrategistas políticos e marqueteiros. E talvez esteja exatamente aí o ponto. Ao defender o fim da reeleição, o governador ocupa uma posição confortável no discurso público: apresenta-se como alguém disposto a discutir reformas políticas e, ao mesmo tempo, mantém intacto seu espaço no jogo eleitoral mesmo sendo um político de carreira com sucessivos mandatos. 

A direita aproveita o momento e tenta pegar uma carona mais uma vez nos escândalos do Brasil. A aprovação da PEC pode não acontecer neste atribulado ano eleitoral. há uma luta contra o relógio e o calendário. Para que o fim da reeleição presidencial se torne realidade, a proposta precisa ser aprovada em dois turnos no Senado e na Câmara dos Deputados, com apoio mínimo de três quintos dos parlamentares em cada Casa, conforme estabelece o artigo 60 da Constituição.

Sem aprovação no Congresso, os presidenciáveis que fazem oposição ao governo irão impor essa bandeira estratégica.

Abaixo PEC protocolada pelo senado Flávio Bolsonaro, assinada por 30 senadores. (confira a lista)

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