04/03/2026

Arroz pede socorro, energia limpa avança e jornada 6×1 volta à conta do agro

Quando o preço cai e o custo fica

O arroz voltou ao centro da política agrícola. Com preço abaixo do mínimo, superoferta no Sul e consumo retraído, o governo abriu a torneira dos mecanismos de sustentação.

Ao mesmo tempo, Brasília debate transição energética, fertilizantes, mercado de carbono e volta a discutir o custo da jornada de trabalho para quem produz.
Março começa com o agro equilibrando três frentes: renda, regulação e competitividade.

Governo libera R$ 73,6 milhões para apoiar arrozeiros

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou a liberação de R$ 73,6 milhões para apoiar a comercialização do arroz da safra 2025/2026.

A maior parte dos recursos R$ 61,3 milhões será destinada ao Rio Grande do Sul, maior produtor nacional do cereal.

O anúncio ocorreu durante a 36ª Abertura da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas, em Capão do Leão (RS), após diálogo com a Federarroz e a Abiarroz.

Os recursos serão executados por meio de:

  • Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro)
  • Prêmio para Escoamento de Produto (PEP)

Esses instrumentos entram em ação quando o preço de mercado fica abaixo do preço mínimo estabelecido pela Conab. Hoje, no Rio Grande do Sul, a saca de 50 kg gira em torno de R$ 53,27, enquanto o preço mínimo está em R$ 63,74 diferença média de R$ 10 por saca.

A expectativa é escoar aproximadamente 300 mil toneladas, sendo 250 mil toneladas apenas no RS, além de volumes em Santa Catarina, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão.

Desde 2024, o governo já destinou R$ 716,8 milhões ao setor por meio de contratos de opção de venda (COV), Aquisição do Governo Federal (AGF) e operações de PEP/Pepro. Os R$ 73,6 milhões são os primeiros recursos anunciados em 2026.

Mas o cenário preocupa. A produção gaúcha está estimada em 7,5 milhões de toneladas (-13,6%), com plantio em 905,2 mil hectares (-6,5%), segundo a Conab. O Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) projeta área ainda menor.

Santa Catarina sente no bolso e no consumo

Em Santa Catarina, o alerta vem do SindArroz-SC. Segundo dados da Scanntech Brasil, o arroz liderou a queda na mercearia básica do varejo, com retração de -36,4% tanto em preço quanto em unidades vendidas.

A safra recorde 2024/25 gerou superoferta. O preço médio está em torno de R$ 50 por saca, enquanto o custo de produção gira próximo de R$ 75.

O presidente do SindArroz-SC, Walmir Rampinelli, reforça a preocupação:

“Se o varejo registra queda também em unidades, precisamos agir para reconquistar o consumidor. Isso passa por comunicação, por mostrar praticidade e por recolocar o arroz na rotina das pessoas, sem abrir mão da qualidade. O arroz é saúde e energia.”

O faturamento das indústrias caiu mais de 40%. Custos fixos permanecem. O setor busca apoio institucional para campanhas de valorização e estímulo ao consumo.

Além da superoferta, há mudança no hábito alimentar, especialmente entre jovens, que priorizam refeições rápidas e produtos substitutos.

O desafio deixou de ser apenas preço virou cultura alimentar.

Produzir alimento e energia limpa: o Brasil quer liderar a transição

Na Câmara dos Deputados, o seminário “Mapa do Caminho Biocombustíveis: a Rota Mais Curta”, promovido pela Comissão Especial sobre Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde (CEENERGIA), reuniu parlamentares, setor produtivo, pesquisadores e governo.

Proposto pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), o encontro debateu o papel estratégico dos biocombustíveis na descarbonização.

O presidente da FPA, Pedro Lupion, destacou:

“Direta ou indiretamente tudo vem do agro. Não é apenas o setor que alimenta o mundo, mas é o setor que vai fornecer a energia limpa que o mundo precisa.”

O evento reuniu representantes da Embrapa Agroenergia, Unicamp, USP, UNICA, BNDES, FINEP, ABIOVE, UNEM, ANP, entre outros. O esboço do projeto de lei do “Mapa do Caminho” ficará aberto a sugestões até 3 de março, com lançamento consolidado previsto para 9 de março, em São Paulo.

Coalizão quer SAF e diesel verde como prioridade no Fundo de Transição Energética

A Coalizão dos Biocombustíveis defende que os recursos do futuro Fundo de Transição Energética priorizem:

  • SAF (Combustível Sustentável de Aviação)
  • Diesel verde

O documento será entregue em 9 de março ao presidente da COP 30, embaixador André Corrêa do Lago.

A proposta prevê três fases de implementação (2026–2040), com ampliação gradual do biodiesel até B25, substituição progressiva de diesel fóssil e consolidação da predominância dos biocombustíveis.

Novo decreto reforça fiscalização de fertilizantes

O Governo Federal publicou o Decreto 12.858, que regulamenta a Lei de Fertilizantes e ajusta normas ao modelo da Lei do Autocontrole (Lei 14.515/2022).

Principais pontos:

  • Programas obrigatórios de autocontrole para empresas do setor
  • Ampliação das categorias de infração (inclui natureza moderada)
  • Redefinição de multas conforme porte econômico
  • Prazo de dois anos para adequação

Também foi regulamentado o Programa de Incentivo à Conformidade em Defesa Agropecuária, com adesão voluntária e possibilidade de regularização por notificação em infrações leves ou moderadas.

Mais rigor e mais previsibilidade regulatória.

Mercado de carbono atrai produtores, mas exige cautela

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei 15.042/2024, ainda está em regulamentação e não inclui o agro no mercado regulado.

Por ora, o setor só pode atuar no mercado voluntário, com projetos auditados por certificadoras internacionais.

Especialistas alertam:

  • É preciso metodologia reconhecida
  • Comprovar adicionalidade
  • Manter documentação (CAR, licenças, registros fundiários)
  • Garantir monitoramento contínuo

Cada crédito equivale a uma tonelada de CO₂ evitada ou removida.

O potencial existe. O risco também.

Fim da escala 6×1 pode custar R$ 10,8 bilhões às cooperativas catarinenses

Levantamento da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC) aponta que a redução da jornada de 44 para 40 horas pode gerar impacto anual de R$ 10,8 bilhões.

Atualmente, as cooperativas empregam 102.402 trabalhadores diretos.

  • Para jornada de 40h: seriam necessárias 12.394 novas contratações, custo mensal de R$ 74,3 milhões.
  • Para 36h: 26.664 contratações, custo mensal de R$ 159,9 milhões.

Santa Catarina registrou desemprego de 2,3%, caracterizando praticamente pleno emprego.

O presidente da OCESC, Vanir Zanatta, foi direto:

“Não existe mão de obra ociosa em nosso Estado. Os setores da agricultura, comércio e serviços terão dificuldade para contratar novos trabalhadores. Será um desafio manter granjas, frigoríficos, indústrias e lojas funcionando.”

A entidade alerta ainda para risco de crescimento da informalidade diante do aumento do custo formal.

Renda, regra e realidade

O arroz precisa de preço.
A energia limpa precisa de escala.
O fertilizante precisa de regra clara.
O carbono precisa de metodologia.
E a jornada precisa caber na planilha.

Março começou mostrando que o agro não tem uma única pauta tem várias frentes abertas ao mesmo tempo.
E todas passam por uma mesma pergunta: quem paga a conta da transição?

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