Artigo de Ana Paula Lima, enfermeira e Deputada Federal (PT-SC)

O debate sobre o fim da escala 6×1 não é apenas uma discussão sobre organização da jornada de trabalho. É um debate sobre dignidade, saúde mental, tempo e desigualdade estrutural. Quando falamos em reduzir jornadas exaustivas, estamos falando diretamente da vida das mulheres trabalhadoras brasileiras.
Atualmente, as mulheres representam cerca de 45% da força de trabalho no Brasil, segundo dados do IBGE divulgados no segundo semestre de 2025. Ao mesmo tempo, são responsáveis por quase o dobro das horas dedicadas aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, quando comparadas aos homens. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) mostra que as mulheres dedicam, em média, mais de 21 horas por semana ao trabalho doméstico não remunerado, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas.
Esses números revelam uma realidade incontornável: a mulher que cumpre a escala 6×1 não cumpre apenas uma jornada. Ela vive a sobreposição de jornadas, sendo a doméstica uma realidade 7×7.
Trabalhar por seis dias e descansar apenas um é especialmente comum em setores como comércio e serviços, cuja presença feminina é significativa e onde predominam salários mais baixos. Para muitas mulheres, o único dia “livre” da semana é, na prática, o dia de organizar a casa, lavar roupa, cuidar dos filhos, acompanhar tarefas escolares, resolver demandas familiares e, muitas vezes, ainda realizar trabalhos informais complementares para garantir renda. O resultado é o esgotamento.
O Brasil vive uma crise silenciosa de saúde mental relacionada ao trabalho. E nessa crise os homens também são vítimas. Dados do Ministério da Previdência apontam crescimento expressivo nos afastamentos por transtornos mentais,principalmente ansiedade e depressão. Somente em 2025 foram mais de 546 mil registros de afastamentos pelo Instituto Nacional de Serviço Social (INSS). Entre as mulheres, esses índices são ainda mais alarmantes, sobretudo entre aquelas que acumulam trabalho formal e responsabilidade exclusiva pelo cuidado doméstico.
É inegável que a escala 6×1 intensifica esse cenário. Ela reduz o tempo de descanso real, compromete o convívio familiar, dificulta o acesso a atividades de lazer e impede a formação continuada. A ausência de tempo adequado para recuperação física e emocional contribui diretamente para quadros de ansiedade crônica, exaustão, irritabilidade e adoecimento psicológico.
Quando discutimos o fim da escala 6×1, estamos discutindo a redistribuição do tempo – e tempo é poder. Tempo é autonomia. Tempo é condição para que mulheres possam estudar, se qualificar, participar da vida política e comunitária, acompanhar a educação dos filhos e cuidar de si mesmas.
A desigualdade de gênero no mercado de trabalho não se resume à diferença salarial. Ela se manifesta também na organização do tempo. Mulheres chefes de família, que representam uma parcela significativa dos lares brasileiros, são diretamente impactadas por jornadas extenuantes. A falta de tempo aprofunda vulnerabilidades e perpetua ciclos de desigualdade.
É preciso afirmar com clareza: produtividade não se constrói com exaustão. Experiências internacionais de redução de jornada indicam manutenção, algumas até aumento, de eficiência, ao lado da melhora em indicadores de saúde e satisfação dos trabalhadores. Economias modernas compreendem que o trabalho deve servir à vida, e não o contrário.
Superar a escala 6×1 é reorganizar o modelo produtivo com centralidade nas pessoas. Para as mulheres, essa mudança representa um passo concreto rumo à igualdade material. Representa reconhecer que o tempo feminino não pode continuar sendo tratado como recurso ilimitado e invisível.
Do ponto de vista legislativo, essa é uma agenda estratégica. Defender a revisão de jornadas exaustivas é defender saúde mental, igualdade de gênero e desenvolvimento sustentável. É enfrentar a lógica de que o crescimento econômico pode ser construído à custa do adoecimento coletivo.
Não se trata de trabalhar menos. Trata-se de viver melhor. Trata-se de garantir que homens e mulheres tenham condições reais de construir projetos de vida, preservar sua saúde mental e participar plenamente da sociedade.
O fim da escala 6×1 é uma pauta trabalhista. Mas é também uma pauta social e civilizatória. É uma escolha sobre que país queremos ser: um país de trabalhadores exaustos ou uma nação que valoriza tempo, dignidade e equilíbrio.






