
A pauta é popular e o custo é real
A semana começa quente no Congresso: o fim da escala 6×1 ganhou padrinho político e virou agenda popular, mas quem está fazendo a conta é o setor produtivo.
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) se reúne para discutir alternativas à proposta que altera a jornada de trabalho; o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, alerta para “desemprego mascarado”; o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) põe número no custo; e Santa Catarina entra no debate com posições duras da Facisc e da Fiesc.
No meio disso, exportadores respiram com o recuo do “tarifaço” dos EUA e o Giro da Safra projeta milho acima de 200 sacas/ha no Extremo-Oeste catarinense.
FPA discute fim da 6×1 e busca alternativa ao “sim ou não”
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) maior bancada temática do Congresso — se reúne hoje para definir posição sobre o fim da escala 6×1. O presidente da frente, Pedro Lupion (Republicanos–PR), tem sido direto: o custo tende a ser repassado ao consumidor se a mudança vier sem desenho de transição e sem alternativa negociada. A estratégia da FPA é evitar o “voto contra” puro e simples e construir alternativas que preservem emprego e competitividade no campo e nos serviços ligados ao agro.
Alternativas em discussão:
- Banco de horas e negociação coletiva para organizar escalas;
- possibilidade de redução gradual da jornada, em vez de corte abrupto;
- modelos que considerem picos sazonais do agro (colheita, processamento, logística), onde a 6×1 ainda é operacionalmente usada.
A proposta do fim da 6×1 ganhou força política ao ser abraçada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos–PB) o que empurra o tema para o centro da agenda em ano eleitoral.
CNA: “não pode ser imposto” e alerta para desemprego mascarado
O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, é contra a imposição por lei ou emenda constitucional. Para ele, a agropecuária se ajusta por negociação, com automação e escalas compatíveis com cada atividade o que não cabe é regra única para realidades diferentes.
Martins também jogou luz sobre o que chama de “desemprego mascarado”: com programas sociais ampliados, parte da pressão do mercado de trabalho fica fora da estatística o que distorce a leitura do impacto de mudanças abruptas no custo do emprego formal.
Ipea põe número no custo: 6×1 encarece a hora em 7,84%
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula que o fim da 6×1 (redução de 44 para 40 horas semanais, escala 5×2) eleva o custo da mão de obra em 7,84%; a escala 4×3 (36 horas) levaria a +17,57%.
O Ipea argumenta que o custo é pontual (aumenta a hora, não se propaga indefinidamente) e pode ser diluído com transição gradual como na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, do senador Paulo Paim (PT–RS), que prevê redução progressiva da jornada.
Tradução para o agro: sem faseamento e negociação, o choque de custo chega rápido em setores intensivos em mão de obra (processamento, serviços, vigilância, limpeza), e o repasse de preço vira o caminho mais curto.
SC pesa mais: Facisc e Fiesc sobem o tom
A Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc) pediu que a bancada catarinense se posicione contra a proposta como está, alertando para aumento imediato de custos, pressão inflacionária e impacto maior em SC onde 71% dos empregos formais estão entre 41 e 44 horas semanais.
Já o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Gilberto Seleme, escreveu que o debate foi contaminado por oportunismo eleitoral. Defendeu que redução de jornada sem corte salarial só é viável com ganho real de produtividade e negociação, lembrando que a concorrência internacional joga com jornadas mais longas e custos menores. O alerta é direto: aprovar no impulso cobra a conta depois em preço, informalidade e emprego.
Trump dobra a aposta: tarifa global sobe para 15% e reacende incerteza no agro exportador
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no sábado (21/2) que as tarifas globais aplicadas pelo seu governo subirão para 15%, acima dos 10% anunciados na sexta-feira (20/2). A decisão veio um dia após a Suprema Corte dos EUA derrubar o pacote tarifário anterior, ao considerar ilegal o mecanismo usado para impor as tarifas.
Na prática, Trump reage ao revés judicial elevando o tom e a alíquota. O movimento reabre o risco de escalada protecionista e devolve incerteza ao comércio internacional num momento em que exportadores brasileiros do agronegócio começavam a respirar com a suspensão do “tarifaço”.
Para o agro brasileiro, o recado é claro: a janela de previsibilidade segue estreita. Frutas, café solúvel e outros produtos com forte exposição ao mercado norte-americano voltam ao radar de risco, com potencial de perda de competitividade e reprecificação de contratos.
O setor acompanha se a Casa Branca encontrará nova base legal para sustentar as medidas e em que prazo isso se traduz em tarifas efetivas na alfândega.
Giro da Safra: Extremo-Oeste de SC acima de 200 sacas/ha de milho
O Giro da Safra parceria da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) com o Sicoob Central Santa Catarina/Rio Grande do Sul (Sicoob Central SC/RS) aponta produtividade média preliminar de 200,1 sacas/ha no Extremo-Oeste catarinense.
Destaques parciais: Pinhalzinho (219,3 sc/ha), Cunha Porã (216,4) e Guaraciaba (215,1).
O levantamento reforça que produtividade cresce mesmo com área menor resultado de manejo, tecnologia e práticas conservacionistas. Para SC, que depende de milho para sustentar a cadeia animal, produtividade é política pública em campo.
Popular no discurso, caro na planilha
Fim da 6×1 rende palanque. Planilha não aplaude. Sem transição, negociação e produtividade, o custo sobe, o preço repassa e o emprego sofre sobretudo em estados intensivos em trabalho como Santa Catarina.
Enquanto Brasília esquenta o microfone, o agro faz a conta e segue cobrando que a política trate custo como custo, não como slogan.





