24/02/2026

Quando a dor vira vingança, todo mundo perde. Por Marlene Fengler

Marlene Fengler (PSD) é secretária-geral da Assembleia Legislativa e foi deputada estadual.

Marlene Fengler (PSD) é secretária-geral da Assembleia Legislativa e foi deputada estadual.

O que aconteceu em Itumbiara, Goiás, é daquelas histórias que a gente lê e custa a acreditar. Um pai, ao descobrir uma suposta traição no casamento, decidiu matar a tiros os próprios filhos para atingir a mulher, e depois tirou a própria vida. Só de escrever isso já dói.

Existe um nome para esse tipo de crime: violência vicária. É quando alguém usa os filhos para ferir emocionalmente o outro. Nesse caso, as crianças viram alvo de uma vingança que não tinha nada a ver com elas.

Mas, pra mim, tão assustador quanto o crime foi ver parte das reações nas redes sociais. Bastou aparecer a palavra “traição” para surgirem comentários mudando o foco da responsabilidade pela tragédia, com pessoas transferindo a culpa para a mulher. Como se a escolha dela justificasse a violência dele, o crime que ele escolheu cometer, transformando os filhos em instrumento de punição.

Esses comentários que sugerem que ela teria provocado o desfecho mostram o quanto ainda convivemos com uma distorção perigosa, na qual o agressor é tratado como alguém que “perdeu o controle”, enquanto a mulher passa a ser julgada pelas escolhas da própria vida.

Essa tragédia levanta uma pergunta que a gente precisa ter coragem de fazer: até quando mulheres e crianças vão continuar pagando o preço de homens que não sabem lidar com frustração? Homens que confundem amor com posse e que acreditam que perder alguém é uma afronta pessoal?

A gente precisa falar, com muita seriedade, sobre como estamos educando nossos meninos. Ainda existe uma cultura que ensina que homem não pode demonstrar fragilidade, que precisa ser forte o tempo todo, que precisa “ganhar” sempre. Só que a vida não funciona assim. Relacionamentos acabam. Pessoas fazem escolhas. E aprender a lidar com isso faz parte de amadurecer.

Amor não é controle, vigilância ou punição. Amor é respeito, inclusive quando um dos dois decide seguir outro caminho.

E também precisamos olhar para outro ponto doloroso: muitas vezes são as próprias mulheres que acabam culpando outras mulheres. É um reflexo de uma cultura que, historicamente, responsabiliza a vítima e ameniza a violência masculina.

Casos assim raramente começam do nada. Normalmente vêm acompanhados de sinais que a sociedade costuma minimizar: ciúme exagerado, controle, ameaças, sensação de propriedade sobre o outro. Quando isso é tratado como demonstração de amor, de cuidado, o risco só aumenta.

Educar para a paz não é discurso bonito. É necessidade. É ensinar que ninguém pertence a ninguém. Que rejeição faz parte da vida,que dor não dá direito de ferir e que respeito não pode ser opcional.

Porque quando alguém transforma sofrimento em violência, não destrói só um relacionamento. Destrói famílias inteiras, sonhos, futuros e vidas que não tinham nada a ver com aquela dor.

E nenhuma sociedade pode se acostumar ou aceitar isso

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