18/02/2026

O efeito Falerno e a arte de não lutar as batalhas erradas

Terminei ontem a leitura de Em Nome de Roma. Adrian Goldsworthy percorre a trajetória de grandes comandantes romanos, mas há um personagem que, silenciosamente, domina o pano de fundo da Segunda Guerra Púnica: Quinto Fábio Máximo, o homem que Roma apelidou de Cunctator, o atrasador.

Não era um herói impetuoso, não era um general que busca a batalha decisiva para imortalizar o próprio nome, mas aquele que entendeu que, diante de um inimigo como Aníbal, lutar no terreno escolhido pelo adversário era a forma mais rápida de perder.

Estamos em 217 a.C., no auge da Segunda Guerra Púnica. Aníbal já havia atravessado os Alpes com elefantes, derrotado exércitos romanos e imposto à República um constrangimento estratégico que beirava o pânico. Roma queria reação, queria revanche, queria uma batalha que restaurasse a honra e apagasse a humilhação. Fábio assumiu o comando com uma leitura que parecia, aos olhos de muitos, quase ofensiva: não era hora de lutar. Era hora de sobreviver. Ele passou a seguir Aníbal à distância, evitando confrontos diretos, atacando pequenas unidades, queimando colheitas antes que os cartagineses pudessem utilizá-las, cortando suprimentos, alongando a guerra. Era uma estratégia de desgaste, não de espetáculo. Foi chamado de covarde. Foi ridicularizado no Senado. Foi acusado de faltar com coragem. Mas, na prática, estava impedindo que Roma se precipitasse em uma derrota definitiva.

O episódio mais simbólico dessa fase é o chamado estratagema de Falerno. No vale fértil de Falerno, Aníbal parecia encurralado. Fábio havia ocupado as passagens estratégicas, bloqueando as rotas de fuga. A expectativa era de que, finalmente, haveria a grande batalha que todos aguardavam. Mas Aníbal fez algo que atravessou os séculos como aula de manipulação. Durante a noite, ordenou que centenas de bois fossem soltos morro acima com tochas amarradas aos chifres. As luzes em movimento, vistas à distância, pareciam indicar o deslocamento de tropas. A confusão se instalou. Unidades romanas se reposicionaram. Enquanto os olhos se fixavam naquilo que brilhava, o verdadeiro exército inimigo escapava por outro caminho. O que ficou conhecido como o “efeito Falerno” é, na essência, uma lição sobre distração: ilumina-se um ponto para esconder o movimento real.

Não é difícil enxergar a metáfora. Quantas vezes, na política recente, corremos atrás de bois com tochas?

Quantas pautas são acesas para produzir indignação imediata, mobilização instantânea, manchetes ruidosas, enquanto as movimentações acontecem em outra direção? O efeito Falerno não é apenas uma jogada militar; é uma aula sobre o funcionamento do poder em ambientes saturados de estímulos. O inimigo mais inteligente não força você a perder energia com o que importa, mas com o que brilha.

Fábio entendeu algo que parece contraintuitivo para a nossa cultura política acostumada ao confronto permanente: não se luta no território do adversário. Não se aceita o enquadramento que ele propõe. Não se entrega a ele a escolha do momento, do terreno e da narrativa. Quando Roma abandonou essa prudência e buscou o confronto decisivo na batalha de Canas, o resultado foi um dos maiores massacres da história militar antiga. A pressa por uma vitória simbólica custou dezenas de milhares de vidas.

Chegamos ao pós-carnaval com um cenário político mais aberto do que há um ano não porque faltaram embates e polêmicas, mas porque sobrou distração. Muita energia foi investida em disputas que não mudaram o favoritismo em praticamente nenhuma das disputas, nos estados ou no quadro nacional. O ciclo da atenção imediata produziu picos, mas talvez com exceção do Estado de Penambuco, pouca coisa parece estar em movimento. A cada semana, uma nova pauta incendiária; a cada dia, uma urgência fabricada; a cada crise, uma corrida para se posicionar primeiro. E, nesse processo, muitos atores aceitaram lutar no terreno escolhido por quem domina a arte de acender tochas.

Se há uma conexão possível entre a estratégia de Fábio, lá de Roma, e a comunicação política que venho defendendo, ela passa por três palavras que são pouco épicas, mas são profundamente estratégicas: intimidade, regularidade e coerência. Fábio não buscava a glória de uma vitória retumbante; buscava preservar Roma enquanto o tempo trabalhava a seu favor. Ele entendia que guerras longas são vencidas por quem sustenta posição, não por quem explode em heroísmo. Na comunicação, a lógica não é diferente. Atenção é um fenômeno pontual. Intimidade é construção contínua. A polêmica pode produzir aplauso momentâneo, mas é a coerência que constrói identidade.

Talvez o maior ensinamento de Fábio Máximo seja a coragem de parecer lento em um ambiente que cobra resultados imediatos. Suportar a crítica de que se está “atrasando” quando, na verdade, se está escolhendo não desperdiçar energia em batalhas que só beneficiam o adversário. Em um cenário em que todos querem a grande batalha decisiva da semana, há força em quem decide preservar capital político, consolidar comunidade, aprofundar vínculos. Roma só venceu Aníbal porque sobreviveu a ele. E sobreviveu, em grande parte, porque houve alguém disposto a atrasar a guerra até que o terreno fosse favorável.

A pergunta que fica, olhando para o nosso ciclo político, não é quem está lutando mais, mas quem está escolhendo melhor onde lutar. Entre correr atrás das tochas e construir posição com constância, talvez a verdadeira ousadia esteja em não aceitar toda provocação como destino.

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