14/02/2026

Por que na folia o calor extremo é muito mais do que “falta de água”

O glitter no rosto e o som no talo escondem um perigo que a garrafinha de água, sozinha, não resolve. No calor de 40°C, o conselho “beba água” é importante, mas perigosamente incompleto. Segundo a Dra. Mayara Floss (médica de família e doutora em Patologia com foco em mudanças climáticas), o que vivemos hoje é o estresse por calor, um inimigo que ataca o cérebro e os rins de forma direta e agressiva.

O Hipotálamo em colapso

O corpo humano possui um termostato central: o hipotálamo. Ele coordena a temperatura, mas no calor extremo, esse “maestro” entra em pane.

“Quando o corpo perde a capacidade de regulação, ele para de esfriar. O desmaio é apenas o sinal visível de um colapso interno muito mais profundo”, alerta a Dra. Mayara.

Quando o termômetro corporal sobe, o corpo entra em “modo de sobrevivência”. Para tentar dissipar o calor, ele desvia o sangue dos órgãos internos para a pele. O resultado para os rins não é apenas sede, é isquemia:

  • Isquemia Renal: O rim sofre pela falta súbita de oxigênio e sangue.
  • Inflamação Mal Adaptativa: O sistema imunológico entra em pane e começa a agredir o próprio tecido renal.
  • Insolação (Heatstroke): Quando a temperatura central ultrapassa os 40°C, ocorre a citotoxicidade. As células dos órgãos começam a sofrer danos progressivos, podendo evoluir de uma lesão aguda para uma doença renal crônica.

Além da desidratação

Para Mayara, o Brasil ainda patina no diagnóstico por tratar tudo como “só desidratação”. Na verdade, a desidratação é um efeito do calor, não a doença em si. O estresse térmico causa uma disfunção multiorgânica que afeta todos os sistemas do corpo simultaneamente.

A combinação de álcool (que inibe o hormônio antidiurético), esforço físico e sol a pino cria a “tempestade perfeita” para o desastre metabólico.

“A gente às vezes fica colocando tudo como desidratação, mas o estresse por calor atua em diversas vias e de forma mais complexa. No Brasil, a gente ainda patina nisso por desconhecimento, inclusive de profissionais de saúde. Na Europa, eles já dizem claramente: ‘pessoas morreram de calor’.”, pontua Floss.

A mistura de álcool, esforço físico (dança) e sol forte são o cenário perfeito para o desastre renal. O álcool inibe o hormônio antidiurético, piorando a perda de líquidos, enquanto o calor extremo sobrecarrega o sistema inflamatório.

No ano passado, um material robusto foi lançado pelo Ministério da Saúde sobre o tema, o Guia das Mudanças Climáticas que traz uma aba específica com explicações e orientações sobre o calor.

Plano de sobrevivência (Baseado na Ciência):

Para evitar que seus órgãos “cozinhem” de dentro para fora, a água é apenas o primeiro passo:

  • Resfriamento ativo: Você precisa baixar a temperatura da pele. Use borrifadores de água fria, leques e busque sombra. Beber água fria ajuda, mas resfriar o corpo externamente é vital.
  • Atenção aos sinais neurológicos: Cãibras, fadiga extrema e, principalmente, confusão mental indicam que o hipotálamo está falhando.
  • Vigilância vermelha: Se alguém parar de suar e ficar com a pele muito quente e vermelha, isso é uma emergência médica (insolação). O sistema de resfriamento quebrou.

O recado da Dra. Mayara Floss é urgente: o calor mata e adoece de formas que a garrafa de água, sozinha, não consegue resolver. Proteger a saúde planetária é, no fim das contas, proteger o funcionamento do nosso próprio “termostato” biológico.

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