O carnaval é reconhecido como um dos períodos mais vibrantes do calendário brasileiro, marcado por uma explosão de cores, sons e encontros. Para muitos, a festa é sinônimo de liberdade e alegria contagiante, mas essa mesma intensidade pode ocultar armadilhas severas para o equilíbrio psíquico. Ruas superlotadas, agendas sem intervalos e a privação sistemática de sono formam um cenário que exige atenção redobrada. Segundo o psiquiatra Ricardo Patitucci, da unidade ViV Saúde Mental e Emocional, o carnaval não deve ser visto como um risco absoluto, mas sim como um evento que demanda consciência emocional. A ideia de que é preciso aproveitar tudo e sustentar um estado constante de animação pode gerar frustração, exaustão e sofrimento psíquico, explica o especialista.
O peso da alegria coletiva no indivíduo
A exposição exagerada a estímulos sensoriais e a quebra brusca da rotina agem como gatilhos para quem possui maior sensibilidade emocional. Ambientes com som excessivamente alto e grandes multidões podem intensificar sintomas de ansiedade e irritabilidade, levando a quadros de pânico. O corpo e a mente dão sinais quando algo não vai bem e ignorar esses sinais em nome da diversão pode cobrar um preço alto depois, alerta Patitucci. O médico reforça que o autocuidado não é um impedimento para a folia, mas sim o que garante a continuidade dela, sendo fundamental reservar momentos de pausa e manter a hidratação e a alimentação em dia para que o prazer não se transforme em desgaste.
Rigor necessário para quem está em tratamento
O planejamento se torna uma ferramenta de sobrevivência para pacientes que já realizam acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. A tentação de interromper a medicação para consumir álcool é um dos maiores perigos deste período, pois a estabilidade química do cérebro é sensível a essas mudanças súbitas.
“Misturar álcool com medicamentos psiquiátricos tende a reduzir a eficácia do tratamento ou provocar efeitos adversos importantes”, ressalta o psiquiatra.
Além disso, a comparação social impulsionada pelas redes sociais pode agravar sentimentos de inadequação e solidão mesmo no meio da multidão. Não compare o seu carnaval com o do outro pois cada pessoa tem uma história e uma condição emocional diferente, reforça o médico.
Identificação de crises e o papel do consumo consciente
Saber reconhecer o momento exato em que a euforia se transforma em crise é vital para a segurança do folião. Sensação de sufocamento, pensamentos acelerados, tristeza intensa e isolamento repentino são alertas claros de que o limite emocional foi atingido. O especialista orienta que, nesses casos, a pessoa deve buscar imediatamente um ambiente calmo e o apoio de alguém de confiança.
“Crise não é fraqueza, é um sinal de que algo precisa de atenção”, afirma Patitucci. Paralelamente, o médico destaca que reduzir o consumo de bebidas ajuda a manter o controle sobre as emoções. O álcool é um fator de risco importante para o agravamento de transtornos como depressão e ansiedade, explica o profissional.
A importância de saber parar
A consciência de que é permitido e saudável se retirar da festa é o que define uma experiência positiva a longo prazo. O bem-estar psíquico não deve ser sacrificado em troca de uma satisfação momentânea e muitas vezes artificial. Respeitar os limites e entender que a saúde mental faz parte da engrenagem da festa são atitudes que ajudam o folião a atravessar o feriado com segurança. A melhor folia é aquela da qual a pessoa consegue voltar inteira emocionalmente e fisicamente, conclui o psiquiatra.





