Todo mundo concorda que o mundo do vinho tem certo glamour que nem sempre faz sentido na vida real, não é mesmo? Tem vocabulário em francês, taças específicas, rituais, adegas subterrâneas e, às vezes, parece mais complicado do que precisa. Em resumo: o cenário perfeito para quem quer fazer pose.
Mas como eu sei que meus leitores são bem mais interessantes do que isso, trago uma provocação diferente:
Você sabe por que gosta daquele vinho que vive indicando para os amigos?
Explico com dois exemplos clássicos.
- A pessoa chega animada e anuncia com orgulho: “Comprei uma caixa do rótulo X. Não tem erro.”
Mas se alguém perguntar o que exatamente ela gosta naquele vinho, a resposta costuma ser vaga: “Ah… é muito bom.” - Você pergunta sobre vinhos preferidos, e a pessoa responde imediatamente com uma lista óbvia de vinícolas argentinas, marcas chilenas e estilos italianos famosos.
Esse é o bebedor de rótulos.
Existe uma diferença enorme entre reconhecer um rótulo e perceber o que aquele vinho entrega. Mesmo que você seja um degustador iniciante, certamente é capaz de descrever, ainda que com vocabulário simples, as sensações que percebe no nariz e na boca.
É assim que começa o caminho para, de fato, entender de vinhos.
Os degustadores mais interessantes que conheço são aqueles que sabem dizer com segurança: “eu gosto de vinhos que deixam a boca mais viva” ou “prefiro os mais macios porque não gosto daquela sensação de secura”. Simples assim.

E veja que eu não estou falando de ostentação. Muitas vezes o bebedor de rótulo nem compra vinhos caros. Ele apenas cria uma zona de conforto e nunca mais sai dali. Encontrou algo que agrada, guardou o nome e pronto: missão cumprida.
O problema é que isso limita demais a experiência. Vinho não foi feito para repetição automática, mas para comparação, descoberta e até para erro. Às vezes você prova algo fora do seu padrão e pensa: “não gostei”. Ótimo. Você acabou de aprender alguma coisa sobre o seu paladar.
Então, para descobrir se você realmente gosta de um vinho (ou se apenas aprendeu a repetir o nome dele) experimente se perguntar:
- Você sabe qual é a uva (ou o blend) que está ali?
- Consegue explicar, com suas palavras, as sensações que ele te causa no nariz e na boca?
- Sabe de que região ele vem e o que aquela região costuma produzir?
- Já provou a mesma uva vinda de outro país para comparar?
Percebe a diferença?
Deixo a pergunta final para você pensar quando estiver bebendo sua próxima taça:
Se tirassem o rótulo da sua garrafa favorita e servissem às cegas, você ainda saberia por que gosta dela?
Se descobrir que anda bebendo mais marketing do que vinho, relaxa. A boa notícia é que sempre dá tempo de virar a chave. Eu sigo aqui para te acompanhar nessa jornada.
Tim tim. 🍷
Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram





