11/02/2026

O dia seguinte a uma crise

No fim dos anos 90, muito antes das redes sociais e das milícias digitais, o cantor Orlando Morais e a atriz Glória Pires viveram um dos episódios mais cruéis de destruição de reputação já vistos no país. Mentiras repetidas à exaustão, acusações sem fundamento e uma opinião pública que julgou antes de ouvir. Era o tempo em que escândalos ganhavam força em jornais, revistas e programas de televisão. Não havia algoritmos nem vídeos virais. Ainda assim, o estrago foi profundo.

Trinta anos depois, a tecnologia mudou, mas a fragilidade da reputação continua a mesma. Hoje, escândalos nascem e crescem em velocidade exponencial. O que antes levava semanas para ganhar força nas páginas impressas agora se espalha em horas por telas pequenas, comentários apressados e narrativas fragmentadas que nem sempre correspondem aos fatos. O julgamento é imediato, e o direito ao contexto parece cada vez mais raro.

Mas o que realmente diferencia uma crise de outra não é o auge do barulho. É o dia seguinte.

Quando a tempestade passa, surge um silêncio estranho. Não é alívio completo, nem esquecimento. É um período de observação, em que marcas e pessoas tentam entender como seguir adiante sem reacender aquilo que ainda está sensível na memória coletiva. O erro mais comum é agir como se nada tivesse acontecido, retomar discursos no mesmo ritmo ou tentar convencer o público de que tudo foi apenas um mal-entendido.

Reconstruir uma reputação exige estratégia. Não se trata de falar mais alto, nem de buscar a frase perfeita. Trata-se de ler o ambiente, ajustar o tom e entender que o tempo da marca nem sempre coincide com o tempo das redes. Depois de um furacão, o silêncio pode não ser ausência de ação, mas uma escolha consciente.

Planos de retomada não aparecem para o público. Eles acontecem nos bastidores, em decisões cuidadosas sobre quando voltar, como voltar e, principalmente, quem a marca precisa ser depois da crise. É um processo menos visível, mas essencial para evitar recaídas.

O caso vivido por Orlando Morais e Glória Pires mostra que escândalos não começaram com a internet, apenas ganharam escala. A reconstrução, porém, continua obedecendo à mesma lógica: consistência, paciência e escolhas estratégicas que não dependem da aprovação imediata.

Reputações não voltam no mesmo ritmo em que desaparecem. No dia seguinte, você pode escolher entre correr para tentar recuperar o tempo perdido ou caminhar com cuidado para reconstruir confiança.

Para quem quer saber mais sobre o caso envolvendo a atriz Glória Pires, o consultor de imagem Mário Rosa trata do assunto no livro Escândalo (Geração Editorial).

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