11/02/2026

Brasília esvazia, o agro acelera: suínos no radar, dados na veia e Santa Catarina puxando o jogo

Congresso em ritmo de Carnaval, campo em ritmo de produção

A semana já começou em ritmo de pré-Carnaval em Brasília: sem reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), plenário esvaziado e agenda política no piloto automático, e deve seguir assim até a terça oficial do feriado.

No campo, porém, não tem bloco nem confete: a suinocultura entra em 2026 com reforço sanitário de alto nível, Santa Catarina consolida liderança em produção e exportação e uma das maiores cooperativas do país mostra que resultado hoje não é só faturamento, é impacto regional, emprego e governança sanitária.

Enquanto a política desacelera, o agro afina a máquina.

Suinocultura ganha “radar” sanitário nacional

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançou, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS), uma plataforma que integra dados laboratoriais (PCR, patologia e monitoramentos de rotina) para detecção precoce de patógenos, fortalecimento da biosseguridade e decisões mais rápidas de defesa sanitária.

O projeto nasce com base em saúde única (animal, humana e ambiental) e já analisou mais de 253 mil testes entre 2019 e 2025, com registros concentrados em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Santa Catarina está entre os estados com testes laboratoriais em andamento, o que eleva o padrão de vigilância em um momento de expansão das exportações de carne suína.

 A lógica é simples: quem antecipa risco sanitário protege mercado, preço e reputação.

Preço ajusta, estrutura segura: 2026 começa promissor para a suinocultura catarinense

A Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS) reconhece o ajuste pontual nas cotações do suíno vivo no sistema de integração, mas lê o movimento como oscilação típica de mercado, sem mudança estrutural de cenário.

Com custos mais equilibrados, organização produtiva e capacidade de resposta rápida às variações de oferta e demanda, o setor entra em 2026 com base mais consistente do que em ciclos anteriores.

O presidente da ACCS, Losivanio Luiz de Lorenzi, avalia que o setor catarinense segue organizado e preparado para responder rapidamente às variações de mercado.

“Esse ajuste nos preços é pontual e faz parte do comportamento normal do mercado. A suinocultura catarinense está estruturada, com produtores tecnificados e um sistema de produção que permite rápida reação às oscilações. A expectativa é de retomada em um curto espaço de tempo”, destaca Lorenzi.

Em Santa Catarina, sanidade e integração continuam sendo o amortecedor das pancadas de preço.

SC lidera produção e exportação de suínos no Brasil

Santa Catarina fechou 2025 na liderança nacional da carne suína, respondendo por mais da metade do volume e da receita das exportações brasileiras do produto.

A produção estadual avançou, a receita cresceu mesmo com custos maiores, e o estado manteve o abastecimento do mercado interno enquanto exportou o excedente para mercados como Japão, Filipinas, China, México e Chile.

De acordo com José Antônio Ribas Júnior, presidente do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne), o protagonismo do estado é evidenciado pelos números do comércio exterior. Santa Catarina foi responsável por 51,2% do volume exportado e por 51,9% da receita total das exportações brasileiras de carne suína.

Em 2025, a produção catarinense avançou 5,9% em relação a 2024, resultando na maior receita histórica do setor, com crescimento de 12,5%, mesmo diante de um aumento de 6,1% nos custos de produção. O desempenho reforça a eficiência produtiva e a competitividade da suinocultura estadual.

Apesar do cenário positivo, a suinocultura catarinense enfrenta desafios estruturais. Entre eles estão a elevada carga tributária, o excesso de regulamentações e a deficiência da infraestrutura logística, incluindo rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Também há demanda por ampliação do abastecimento de água e energia elétrica, além da implantação de gasodutos industriais.

No Oeste catarinense, principal polo produtor, Ribas reforçou a necessidade de investimentos como a duplicação da BR-282, a recuperação da BR-163 e de rodovias estaduais, como a SC-283, além do fortalecimento das ferrovias Norte-Sul e Leste-Oeste.

Aurora Coop Sistema, escala e intercooperação

A Aurora Coop fechou 2025 com um sistema que integra 14 cooperativas, 87 mil famílias no campo e mais de 50 mil colaboradores, processando diariamente 35 mil suínos, 1,4 milhão de aves e 1,6 milhão de litros de leite.

O modelo de intercooperação sustenta escala industrial com capilaridade regional base para competir no mercado global sem abandonar o produtor integrado.

Mercado externo: restrição, rearranjo e China no radar

No exterior, 2025 foi de restrições sanitárias pontuais e fechamento temporário de mercados, o que exigiu reorganização de fluxos, melhora de mix de produtos (suínos e processados) e leitura fina de câmbio. A abertura da primeira subsidiária internacional em Xangai elevou a inteligência comercial no mercado asiático. Resultado: exportações preservadas mesmo em ambiente mais hostil.

Mercado interno: preço sensível, valor agregado como saída

Com consumo mais racional e maior sensibilidade a preço, a cooperativa avançou em segmentação de canais, digital, industrializados e categorias de maior valor agregado. A incorporação da Gran Mestri (queijos especiais) fortaleceu a presença em momentos de consumo premium estratégia para defender margem quando o volume aperta.

Emprego, economia regional e ativos biológicos

Em 2025, a Aurora criou 3,6 mil empregos e movimentou a economia regional com mais de R$ 27 bilhões em valor adicionado, ICMS e remuneração/benefícios. A operação com ativos biológicos adotou o conceito de saúde única e reforçou bem-estar animal, com investimentos bilionários em suínos, aves e leite. Escala sem governança sanitária hoje não passa na alfândega.

JBS amplia o “mapa do churrasco” no Oriente Médio

A JBS anunciou US$ 150 milhões em joint venture no Omã para produzir bovinos, aves e cordeiros, com capacidade projetada acima de 300 mil toneladas/ano e cronograma de entrada em operação em até 12 meses para aves. É a estratégia de fincar bandeira onde o consumo cresce e a logística encurta.

Quando Brasília cochila, o campo calibra

Sem FPA e com o Congresso em ritmo de Carnaval, a política deu um cochilo.

O agro, não. Reforçou sanidade com dado, mostrou músculo em Santa Catarina e provou, com a Aurora, que competitividade hoje é escala + governança + valor agregado.

Quem esperar Brasília acordar para organizar a casa, perde mercado. O campo segue no compasso do relógio global.

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