09/02/2026

Carnaval 2026: A estratégia de Floripa para zerar HIV e ISTs nas baladas

Florianópolis chega ao Carnaval de 2026 consolidada como uma referência nacional em saúde pública. A capital catarinense ostenta a primeira posição no ranking de queda de incidência de HIV nos últimos cinco anos, com uma redução de 29%, mas não pretende estacionar nesse número. Este ano, uma estratégia de guerrilha leva a prevenção para dentro dos bares, casas noturnas e saunas do Centro Leste e de outros pontos estratégicos da Ilha, garantindo que o cuidado esteja presente exatamente onde a diversão acontece.

A ação não é um fato isolado, mas o resultado de um trabalho intenso da Comissão Municipal de HIV/aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Em parceria estratégica com a Secretaria Municipal de Saúde e movimentos sociais, um grupo técnico de especialistas e ativistas assina o projeto.

Fazem parte desta comissão nomes fundamentais para a saúde pública local: Ana Cristina Magalhães Fernandes Báfica, Angélica da Silva, Caroline Scheitzer, Cecilia Ribeiro Ramos, Cezar Anselmo Andreazzi, Daniela Salomé de Andrade, Danusa Graeff Chagas Pinto, Elizimara Ferreira Siqueira, Fabíola Stolf Brzozowski, Fernanda Karolinne Melchior Silva Pinto, Flávia Henrique, Júlia Maria de Souza, Larissa de Melo Alvarenga, Leila Melo Bartholdy de Figueiredo, Marinice Teleginski, Ronaldo Zonta, Tiffany Floriano de Andrade Bernardi e Vinícius Paim Brasil.

Além das equipes da Prefeitura, a sociedade civil é representada por agentes como Marcelo Pacheco Freitas, Leticia Borges de Assis, Oliê Cárdenas, Matheus de Luca, Laurinha Brelaz, Ariel Lavezzo e Thales Alves.

O papel desses educadores é humanizar a saúde, utilizando o diálogo direto para desmistificar temas técnicos e garantir que a proteção chegue a todos de forma acessível. Como eles mesmos definem:

“Carnaval é a nossa maior festa popular. Nela todo mundo se relaciona de forma democrática e, nós educadores populares, queremos que a prevenção também seja democrática. Por isso, fazemos esse trabalho corpo a corpo para que as pessoas se sensibilizem e se previnam não só para o HIV, mas para todas as ISTs.”, destaca Letícia de Assis.

Insumos no balcão: Onde e como encontrar proteção

A parceria com os estabelecimentos de entretenimento garante que displays e totens informativos estejam sempre abastecidos e visíveis em locais estratégicos como banheiros, caixas e áreas de circulação. O objetivo é reduzir barreiras e eliminar o constrangimento na hora de buscar proteção. Os kits gratuitos disponibilizados incluem preservativos internos e externos, com destaque para os novos modelos texturizados e extrafinos, além de gel lubrificante, que é essencial para o conforto e para evitar rompimentos do látex.

Além dos métodos de barreira, a prefeitura distribui autotestes de HIV. Essa tecnologia funciona de forma semelhante a um teste de gravidez de farmácia, onde a pessoa coleta uma amostra de fluido da gengiva ou uma gota de sangue e obtém o resultado em cerca de 20 minutos, com total privacidade. É uma ferramenta de extrema importância para o diagnóstico precoce, visto que, em 2024, cerca de 19% dos novos casos na cidade foram descobertos já em estágio avançado.

Parceria com bares e casas noturnas: Foto: Prefeitura de Florianópolis

Prevenção Combinada: O uso da PEP e da PrEP

A estratégia de 2026 aposta na Prevenção Combinada, que oferece diferentes camadas de proteção para diferentes situações. Segundo o médico de família Ronaldo Zonta, membro da comissão municipal de HIV da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis, explica melhor o assunto.

“O Carnaval aumenta o contato físico e as relações ocasionais, por isso a prevenção é essencial. Ele explica que, além do uso do preservativo e do lubrificante, é fundamental conhecer as alternativas, como a PEP para prevenir o HIV em casos de urgência, quando não se usou o preservativo ou ele estourou, disponível em até 72 horas nas UPAs, e a PrEP, voltada para quem busca uma camada extra de proteção contínua contra o vírus”, explica.

Para entender como Florianópolis se tornou referência, é preciso mergulhar no conceito de Prevenção Combinada. Essa estratégia rompe com a ideia antiga de que apenas a camisinha salva. Hoje, a saúde pública trabalha com uma “mandala” de opções, onde o folião combina diferentes métodos de acordo com sua vida e o momento da festa.

Aqui estão os detalhes fundamentais para entender essas tecnologias que estão disponíveis gratuitamente no SUS:

Para entender a estratégia de Florianópolis, é preciso conhecer a Prevenção Combinada. Esse modelo oferece um cardápio de opções para que cada pessoa escolha a melhor forma de se proteger, entendendo que o uso da camisinha pode ser somado a outras tecnologias avançadas do SUS.

As ferramentas combinadas dessa estratégia, além da camisinha e do autoteste, são a PrEP e a PEP:

PrEP (Antes do contato)

A Profilaxia Pré-Exposição é o cuidado antecipado. A pessoa toma o medicamento de forma programada para que, caso haja contato com o vírus HIV, o corpo já tenha uma barreira química que impeça a infecção. É ideal para quem deseja uma proteção contínua e busca uma camada extra de segurança além do preservativo.

PEP (Depois do contato)

A Profilaxia Pós-Exposição é a medida de urgência, o “plano B” da saúde. Ela é indicada para quem passou por uma situação de risco, como o rompimento da camisinha ou a relação desprotegida. O tratamento dura 28 dias e deve ser iniciado em até 72 horas após o ocorrido. Durante o Carnaval, o atendimento é feito nas UPAs 24h.

Por que “Combinada”?

A prevenção é chamada de combinada porque une esses medicamentos ao uso de preservativos, gel lubrificante, testagem regular e vacinação (como contra o HPV e Hepatite B). Em Florianópolis, a Comissão Municipal trabalha para que o cidadão tenha autonomia: se uma barreira falhar, existem outras prontas para entrar em ação.

Dados do Ministério da Saúde acendem o alerta

Apesar das conquistas históricas, os dados divulgados em dezembro de 2025 mostram que Florianópolis ainda enfrenta desafios críticos. Em 2024, o município ocupou a primeira posição entre as capitais na taxa de detecção de HIV, com 49,4 casos por 100 mil habitantes. A mortalidade por aids na cidade também preocupa, apresentando um índice de 5,1 óbitos por 100 mil pessoas, número superior à média nacional de 3,4.

Considerando que o Carnaval de Florianópolis atrai entre 1,3 e 1,5 milhão de pessoas, a campanha se torna o momento oportuno para reinserir o público jovem no sistema de saúde. A meta é que esta parceria com os bares se estenda para além dos dias de folia, mantendo os insumos disponíveis durante todo o ano por meio de um canal direto de reabastecimento via WhatsApp da Assistência Farmacêutica. Com informação clara e acesso facilitado, a capital catarinense prova que o melhor Carnaval do Brasil é aquele que acolhe e cuida de quem se diverte.

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