Lacrar: recurso discursivo voltado a atrair atenções, nem sempre com relação direta com a realidade. Essa é uma das definições possíveis para o verbo “lacrar”, hoje convertido em estratégia de engajamento amplamente utilizada na política brasileira e mundial.

A receita é simples e frequentemente eficaz: produzir conteúdos impactantes, quase sempre polarizados, para ganhar visibilidade, curtidas e inflamar eleitores nas redes sociais.
E não é que João Rodrigues, prefeito de Chapecó e suposto pré-candidato ao Governo de Santa Catarina, acusou em vídeo o governador Jorginho Mello de estar “lacrando” no caso do cachorro Orelha?
Detalhe pequeno, como diria o já saudoso Henrique Maderite: Rodrigues é, ele próprio, um notório lacrador, ao menos na avaliação deste colunista. Sua comunicação é frequentemente marcada por linguagem agressiva, frases de efeito e vídeos curtos pensados para estabelecer polarizações permanentes.
Em seu feed, desfilam conteúdos lacradores sobre temas da gestão municipal (como alguns vídeos envolvendo moradores de rua) e também conteúdos ideológicos, sempre com alto potencial de engajamento. Em um deles, chegou a mandar a Rede Globo para “pqp”, num gesto que diz muito mais sobre performance do que sobre política pública.
Ou seja: o prefeito da maior cidade do Oeste catarinense critica a lacração alheia a partir do mesmo repertório comunicacional.
Mas voltemos ao fato que interessa. O governador Jorginho Mello afirmou, em vídeo, que alguns elementos da investigação da Polícia Civil sobre o episódio seriam de “embrulhar o estômago”. Foi a partir dessa fala que João Rodrigues lacrou. Ops, “questionou”. Ele afirmou que o governador teria sido precipitado, que dispunha de informações privilegiadas e que estaria tentando lacrar com o caso.
Não satisfeito, João também partiu para cima da Polícia Civil, acusando-a de divulgar informações contraditórias e citando nominalmente o Delegado-Geral Ulisses Gabriel. Insinuou, inclusive, que a adoção do cão caramelo pelo delegado teria motivações lacrativas, já que o episódio foi amplamente postado nas redes sociais. “Mas que idiotice é essa?”, arrematou.
Não sejamos ingênuos. A motivação de todos os envolvidos neste episódio é essencialmente política (quem dera fosse genuinamente o destino dos assassinos do cão assassinado). Não cabe a este colunista julgar quem está certo ou errado no caso concreto. O ponto aqui é outro.
O episódio serve como gancho perfeito para uma discussão maior: qual é o limite da lacração na comunicação política? Trata-se de um fenômeno passageiro ou estamos diante de uma mudança estrutural?
No Brasil, já se fala até em uma “Bancada do Like”: parlamentares e gestores que priorizam vídeos engajadores em plataformas como TikTok e Twitter/X, relegando a segundo ou até terceiro plano o papel para o qual foram eleitos: legislar, governar, formular políticas públicas e enfrentar problemas reais.
O curioso é que “lacração” nem sempre foi xingamento. O termo surgiu com conotação positiva, associado à coragem de enfrentar consensos estabelecidos e tensionar estruturas de poder. Segundo artigo recente do Jornal da USP, a lacração deixou, gradualmente, de ser instrumento de crítica para se tornar um atalho retórico. Foi o momento em que a performance passou a valer mais do que o argumento, e o aplauso mais do que a persuasão. O que antes simbolizava posicionamento hoje soa, muitas vezes, como caricatura.
Ainda assim, muitos políticos seguem investindo nesse caminho, não mais como estratégia pontual, mas como vício narrativo. A lógica da lacração deixa de ser ferramenta estratégica e passa a ser identidade política. Comunicar vira performar; governar, um detalhe secundário.
O próprio governador Jorginho Mello passou por uma guinada em sua comunicação, especialmente após mudanças na equipe responsável pela área. Do ponto de vista do engajamento digital, a melhora é evidente. As métricas não mentem. Do ponto de vista da persuasão, a linguagem dos conteúdos também tornou-se mais direta e didática. Jorginho hoje consegue conciliar, em sua comunicação, entregas da gestão com um discurso ideológico mais claro. Mas é notório que parte desse conteúdo foi pensado para gerar buzz e tensionar o debate político.
Esse êxito comunicacional, no entanto, cobra um preço institucional. Ao substituir o debate público pela performance constante, empobrece-se a política. Mas sejamos honestos: atire a primeira pedra o comunicador que não faria o mesmo, sendo responsável pela imagem do governador. Inclusive este colunista.
Sem hipocrisia, a lacração não é um desvio da política. Talvez seja sua adaptação natural ao ambiente das redes sociais. O problema surge quando governar vira detalhe e performar vira prioridade absoluta.
No fim das contas, talvez Santa Catarina não esteja debatendo quem tem razão no caso do cachorro Orelha, mas quem consegue lacrar melhor sobre ele.
Qual é o limite da lacração? Eu não sei. Mas minha intuição sugere que ela não é passageira. Tudo indica que estamos diante de uma mudança estrutural e definitiva na forma de fazer comunicação política. A pergunta que fica não é se os políticos vão lacrar, mas até que ponto ainda haverá espaço para algo além disso.




