06/02/2026

Análise: Como um “grande acordo nacional, com o PP, com tudo”, isolou Carol de Toni

Enquanto escrevia este texto, lembrei daquela velha máxima: o ano só começa depois do Carnaval. Se teve uma coisa que não aconteceu na política catarinense neste início de ano foi “deixar para depois”.

Antes mesmo da abertura da janela partidária, período em que quem vai disputar a eleição no ano vigente pode trocar de partido sem o risco de perder o mandato, as articulações alcançaram níveis nacionais. E quando falo de articulação em nível nacional, é no sentido literal. Pelo menos, por enquando, o desenho político do estado de Santa Catarina sofreu tentativas de interferência direta de executivas nacionais.

A autonomia das decisões políticas de um estado, com todos os seus “quebra-pratos” próprios do ambiente político, foi colocada em segundo plano. O motivo? Atender ao pedido de um pai em favor de um filho.

Nós vamos falar mais uma vez sobre isso, para que, ao se pesquisar a história política do estado num futuro próximo, encontrem-se registros de quando Santa Catarina foi tratada, de modo injusto, como um estado sem relevância, servindo apenas como garantia de votos para esse ou aquele.

Santa Catarina viveu dois momentos políticos no último ano. Um, quando a chapa de candidatura à reeleição de Jorginho Mello (PL) vivia seus momentos de calmaria, com Carol de Toni e Esperidião Amin como pré-candidatos ao Senado. Outro, quando Carlos Bolsonaro fez as malas e escolheu um CEP em São José, na Grande Florianópolis, para morar. Dizem, mas não confirmo, que a ideia de morar em São José, e não na Capital propriamente, era para não dar margem a interpretações de que ele quisesse apenas “curtir” o estado. Dizem. Não sei se é verdade.

Retomando os fatos.

A notícia da pré-candidatura de Carlos pegou muita gente de surpresa e, inicialmente, pareceu até improvável. Ao melhor estilo: “Eu só acredito vendo. Eu vendo: não acredito”.

A candidatura dele não é o grande xis da questão; é legalmente possível que isso ocorra no Brasil, conforme a legislação vigente. O problema começou quando todo mundo percebeu que três corpos não podem ocupar dois lugares no espaço. Desse modo, ia sobrar alguém. Quem?

Se Amin e Carol já estavam prometidos, como Carlos também seria candidato?

A essa altura do campeonato, uma pulga passou a morar atrás da orelha de Carol de Toni que, apesar de tudo, acreditou que ter sido uma deputada federal defensora das pautas de direita e leal a Bolsonaro carimbaria seu passaporte para o Senado. Só que ela não podia sequer cogitar a ideia de refutar a candidatura de Carlos, uma vez que a máquina de moer reputações do bolsonarismo poderia se voltar contra ela.

Do outro lado do balcão, Esperidião Amin: senador e pré-candidato à reeleição. Calmo, tranquilo e sereno. Em todo o período recente, ninguém conseguiu arrancar dele nenhuma declaração no calor da emoção. Amin permaneceu mudo, apenas esperando a hora de bater a foto para o santinho na chapa do Jorginho.

Na manhã desta quinta-feira, o motivo da calmaria de Amin foi exposto pela própria Carol, ao revelar que o presidente nacional do seu partido, Valdemar da Costa Neto (PL), informou-lhe que uma das vagas ao Senado na chapa do governador era de Carlos e a outra de Amin. E tinha mais: segundo Carol, o PP nacional pediu garantias que ela não seria candidata, para garantir a viabilidade eleitoral de Amin. O pedido fazia “sentido”, já que ela lidera as pesquisas para o Senado, no estado.

Carol descobriu que nunca esteve nos planos do PL nacional.

O choque da deputada foi proporcional à repercussão da notícia. Valdemar explicou a ela que um “grande acordo nacional” estava em curso entre o PL e o União Progressista (federação formada pelo União Brasil e o PP, do qual Amin faz parte). Vavá desenhou o cenário para Carol e disse, em outras palavras: “o problema não é você, sou eu”. Ele disse que havia fechado acordos em vários estados entre esses partidos e que agora precisaria cumpri-los. A Federação apoia a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e, para dedicar um apoio dessa relevância, precisava de algumas garantias. É aí que a candidatura de Esperidião Amin na mesma chapa do PL de Flávio sempre esteve na conversa. Pelo menos em Brasília.

Antes de tudo isso, lá em outubro do ano passado, a deputada estadual Ana Campagnolo já havia alertado que a chegada de Carlos tiraria Carol do PL. Ela citou como motivação o fato de que o acordo nacional entre PL e PP implicaria na falta de espaço no estado para Carol. À época, Carlos disse que isso era “mentira”.

Naquele mesmo momento, Carol de Toni vivia a reta final de sua segunda gestação e, aqui, o fato merece destaque. A fase do puerpério impõe desafios importantes e, talvez por conta disso, Carol tenha optado por não se manifestar publicamente sobre o risco de perder a vaga. Quem fez isso em seu lugar foi Ana Campagnolo, a primeira no estado a enfrentar um “exército” para alertar sobre os riscos que a colega enfrentaria. Ana sabia, desde o início, que o acordo com o PP seria honrado, doendo a quem doesse. Como era de se esperar, virou alvo da militância, a qual enfrentou sem medo. A coragem lhe rendeu um salto de alcance digital, além de furar a bolha e alcançar novos públicos.

Voltando ao que nos trouxe até aqui: o acordo entre PP e PL, no âmbito nacional, está amparado principalmente pelo tempo de TV. O PP tem hoje o maior tempo, graças à federação com o União Brasil, um diferencial que não se pode ignorar. Com Flávio Bolsonaro candidato a presidente, o PP transforma seu tempo de TV em um de seus principais atrativos. Esse contexto exemplifica por que Esperidião Amin e Carlos Bolsonaro formam uma chapa “óbvia” ao Senado.

Desde dezembro, Carol tem dito que, sem lugar na chapa de Jorginho para disputar o Senado, deixaria o partido. Foi aí que o governador tratou de trazê-la de volta para perto e lhe dar garantias de que iria de chapa pura, com Carol e Carlos. Só que, no meio do caminho, havia os acordos nacionais de Valdemar e dos Bolsonaro, cada um com seus interesses. Diante disso, ela voltou a afirmar que “não queria, mas se vê obrigada a deixar o PL” para poder ser candidata. Após a entrevista de Carol, ontem, Jorginho reafirmou que, em Santa Catarina, a chapa é Carol e Carlos, e que vai costurar isso com Jair Bolsonaro.

Olhando os fatos, talvez Carol tenha ficado em silêncio tempo demais. Na política, é preciso defender o próprio poder, e ela optou pelo não confronto. Agora, ao anunciar novamente que deixa o PL, o que certamente fará, a deputada deve buscar uma sigla que lhe dê garantias. E é aí que mora outro problema: quem garante a garantia? Se no partido em que ela esteve por tanto tempo não houve segurança de fato, haverá em outro?

Após a divulgação da informação de que o PP nacional, ao fechar o acordo com o PL, pediu a manutenção da candidatura de Amin e que Carol não fosse candidata, o PP estadual disse que não foi a executiva estadual, nem Amin, quem fez o pedido. Se não foram eles, então quem foi?

O episódio deixa uma lição amarga para quem acredita que lealdade ideológica é garantia de sobrevivência. Entre a fidelidade de uma aliada e o peso de uma federação nacional com tempo de TV, o pragmatismo falou mais alto. Agora, resta saber se o eleitor catarinense aceitará o desenho feito em Brasília ou se o ‘quebra-pratos’ que tentaram evitar vai acabar acontecendo dentro das urnas. Ao anunciar a saída do PL, Carol de Toni tenta retomar as rédeas do próprio destino, numa corrida contra o tempo.

Talvez seja incômodo perguntar isso publicamente em tempos de patrulha digital, ainda assim, é preciso: quem será o próximo sacrificado em nome da conveniência de Brasília ou da família Bolsonaro?

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