Um projeto brasileiro que reúne pesquisadores da Fiocruz, do Instituto Pasteur de São Paulo e da Universidade de São Paulo foi um dos dois selecionados no Edital Tripartite 2025, iniciativa voltada ao fomento de colaborações científicas de alto impacto. A proposta tem como foco o câncer de pâncreas, uma dos cânceres mais agressivas e com opções terapêuticas ainda limitadas.
Intitulado AI-based proteomic discovery of pancreatic cancer secretome neoantigens for mRNA vaccines, o projeto propõe o desenvolvimento de uma plataforma integrada para a identificação de neoantígenos (proteínas ou fragmentos de proteínas produzidos por células tumorais a partir de mutações no DNA) com potencial aplicação no desenvolvimento de vacinas de mRNA. A estratégia combina bioengenharia, análises multiômicas e IA (Inteligência Artificial) em um consórcio internacional e interdisciplinar.
O centro da pesquisa é a criação de um modelo inovador de pâncreas-on-a-chip, tecnologia de órgãos em chip capaz de reproduzir de forma mais fiel o microambiente tumoral humano. Nesse sistema as células de câncer pancreático são cultivadas em um chip plástico por onde circula em um meio que simula o fluxo sanguíneo, fornecendo nutrientes e removendo resíduos e moléculas secretadas pelas células.
A partir desse modelo, os pesquisadores irão analisar proteínas secretadas e vesículas fora das células por meio de proteômica (proteínas que fazem o trabalho dentro da célula) de alta resolução, além de perfis transcriptômicos (estudo de todos os RNAs que uma célula produz em determinado momento) com foco em RNAs não codificantes longos, moléculas cada vez mais associadas à resposta imune. O projeto é coordenado pelos pesquisadores Lucas Blanes, da Fiocruz Paraná, Helder Takashi Imoto Nakaya, do Instituto Pasteur de São Paulo, e Eduardo Moraes Rego Reis, do Instituto de Química da USP.
Segundo Lucas Blanes, os órgãos em chip representam um avanço importante para a pesquisa biomédica por permitir o uso de células humanas em condições mais próximas da realidade fisiológica. A tecnologia também reduz a dependência de modelos animais e pode acelerar a geração de resultados mais relevantes para a pesquisa translacional.
Os dados gerados no pâncreas-on-a-chip serão integrados a grandes bases públicas de transcriptômica e proteômica de pacientes. Para essa etapa, o projeto utiliza abordagens avançadas de inteligência artificial, como aprendizado de máquina, com o objetivo de identificar e priorizar neoantígenos com maior potencial, refinando a seleção de candidatos a vacinas de mRNA.
Apesar do avanço científico, o pesquisador destaca desafios estruturais para a consolidação da tecnologia no Brasil, como a ausência de produção nacional de chips e equipamentos de controle de alta precisão. Diante desse cenário, a equipe estabeleceu uma linha de trabalho voltada ao desenvolvimento de chips e maquinário nacionais, em colaboração com engenheiros mecânicos e eletrônicos, com foco na redução da dependência de tecnologias importadas.
O financiamento do edital, no valor total de 45 mil euros divididos entre as três instituições, tem caráter catalisador e visa principalmente fortalecer a integração institucional, a mobilidade de pesquisadores e o intercâmbio de conhecimento. Entre os resultados esperados estão a validação do modelo de pâncreas-on-a-chip, a geração de novos bancos de dados e a identificação de candidatos promissores para futuras vacinas de mRNA.
Para os coordenadores, o impacto do projeto vai além da pesquisa atual, ao contribuir para a construção de uma base científica e tecnológica que permita ao Brasil avançar de forma mais autônoma na área de órgãos em chip e na imunoterapia do câncer.





