A passagem do ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), por Santa Catarina não foi apenas uma agenda administrativa. Foi um movimento político calculado. Ao anunciar o túnel no Morro dos Cavalos e provocar o governador Jorginho Mello (PL), o ministro não estava falando só de obras: estava abrindo a temporada eleitoral no Estado.

Até aqui, Jorginho vinha surfando praticamente sem contraponto organizado. A oposição estava dispersa. A esquerda em processo de reorganização e focada em criticar as pautas conservadoras do governador. João Rodrigues —candidato declarado do PSD— vive num morde e assopra. O MDB tenta debutar na oposição, mas ainda não achou o discurso.
A visita de Renan Filho muda o jogo porque nacionaliza o embate e cola o governo Lula no debate catarinense. Não é pouca coisa. Santa Catarina é território hostil ao PT e ao lulismo. Trazer um ministro para confrontar diretamente o governador bolsonarista é um gesto de disputa simbólica: o Planalto resolveu entrar no ringue em SC.
A fala de Renan Filho em entrevista à Rádio Cidade em Dia — “o que mais surpreende em Santa Catarina é o governo não ter obras” — não foi improviso. É a narrativa clássica de Brasília contra o “governo que só faz marketing”.
Ao provocar, o ministro força Jorginho a sair da zona de conforto e a vestir o figurino que mais gosta: o do governador que briga com o PT e com Lula.
A reação de Jorginho Mello, chamando o ministro de “picareta júnior”, também não é acidente retórico. É cálculo político. Ele sabe que seu eleitorado se mobiliza no confronto direto com o lulismo. Quanto mais o embate sobe de tom, mais Jorginho consegue nacionalizar sua reeleição e enquadrá-la como um plebiscito “contra o PT”.
Os vídeos em cadeia — primeiro o da entrevista de Renan, depois o de Jorginho, depois a tréplica do ministro — mostram que a disputa não é por asfalto, mas por narrativa. Quem é o pai das obras? Quem aparece como o “governo que faz” e quem vira o “governo que só fala”? Em ano pré-eleitoral, obra vira discurso; discurso vira palanque.
O detalhe dos “3 mil quilômetros de rodovias” ditos por Jorginho não importa tanto pelo número em si, mas pelo efeito político: inflar feitos para criar a imagem de um governo realizador e blindar o discurso de Brasília. A oposição vai explorar a aritmética; o governo aposta que o eleitor absorve a sensação de obra, não o dado técnico.
Recado ao MDB catarinense
Renan Filho, por sua vez, não veio só como ministro. Veio como peça de articulação nacional. Ao bater em Jorginho, sinaliza ao MDB catarinense que há vida fora da órbita do governador e que o partido pode se reposicionar no campo oposicionista, orbitando o governo Lula. É um recado interno: o MDB em SC não precisa ser coadjuvante do bolsonarismo local.
O recado, se existiu, não foi bem recebido pelo secretário de Infraestrutura, emedebista Jerry Comper, que saiu em defesa do governador, contra o ministro do seu partido. Ele usou suas redes sociais para falar do Programa Estrada boa e citar obras do Governo pelo estado. Não poderia ser diferente: Jerry lidera a Secretaria responsável pelas obras. O MDB aguarda por sua saída do Governo, assim como os demais secretário do partido.
Ensaio geral da campanha
O episódio também funciona como ensaio geral da campanha: de um lado, Jorginho Mello encarnando o “governador anti-PT”, falando grosso com Brasília e vendendo autonomia; do outro, o governo federal tentando furar a bolha conservadora catarinense com obra, presença e provocação política.
Quem ganha no curto prazo é Jorginho, que “aviva” seu discurso anti-PT no estado mais bolsonarista da federação. Mas quem entra no jogo é a esquerda, que até agora não tinha um discurso unificador contra o governador.
Renan Filho abriu a porta para que a eleição em Santa Catarina deixe de ser uma disputa local e passe a ser um capítulo do embate Lula x bolsonarismo.
Em entrevista recente à jornalista Karina Manarin, Jorginho Mello apontou como um dos motivos para escantear o MDB — cotado para indicar seu vice —o fato do partido poder estar com Lula, em nível nacional, na eleição de outubro.
A herança da briga: Jorginho x Renan Calheiros
Não é irrelevante que o ministro seja filho de Renan Calheiros. O embate carrega memória política. Jorginho construiu parte de sua identidade no Senado como antagonista de Renan e do lulismo.
A troca de farpas não é obra do acaso. Em setembro de 2021, durante a CPI da Covid no Senado, Renan Calheiros (MDB), relator da comissão e crítico do governo Bolsonaro, e Jorginho Mello, então líder do governo, protagonizaram um bate-boca digno de boteco de beira de estrada.
Renan acusou o governo Bolsonaro de corrupção no caso Covaxin, envolvendo a Precisa Medicamentos. Jorginho reagiu dizendo que o presidente não contratara “picaretas”. Renan pediu para não ser interrompido. A partir daí, a conversa desandou.
Teve “vá pros quintos”, teve Luciano Hang no meio do fogo cruzado, teve “lave a boca para falar dele”, teve “vagabundo” de um lado e “ladrão” do outro. Colegas precisaram intervir para evitar que a CPI virasse UFC.
O xadrez da esquerda sonhando com segundo turno
O pano de fundo de tudo isso é a eleição de outubro. O PT tenta montar uma frente de esquerda competitiva depois de ter chegado ao segundo turno em 2022. O PSOL já se descolou com Afrânio Bopré. O centro da articulação passa agora por quem será o nome capaz de enfrentar Jorginho sem parecer “mais do mesmo”.
A hipótese Gelson Merísio, hoje no Solidariedade e cotado para o PSB de Alckmin, é politicamente interessante porque quebra a caricatura “PT contra Jorginho”. Merísio não é de esquerda, mas pode funcionar como ponte entre lulismo, centro e setores descontentes com o governador. Nesse arranjo, Décio Lima viraria o nome ao Senado, consolidando a aliança com o Planalto.
Se esse desenho avançar, a provocação de Renan Filho deixa de ser um episódio isolado e vira o primeiro ato de uma campanha nacionalizada em Santa Catarina: Lula e seus ministros tentando furar o bloqueio ideológico do Estado; Jorginho transformando cada visita de Brasília num comício antecipado contra o PT.
O túnel no Morro dos Cavalos pode até não sair do papel. O que já saiu é o clima de campanha.






