1 de fevereiro de 2026

Nem só com cartazes se faz uma manifestação no Congresso. Por Deniza Gurgel

Deniza Gurgel escreve artigo sobre como parlamentares dos EUA usam roupas como forma de protesto e questiona se, no Brasil, essa estratégia pode substituir os cartazes proibidos no Congresso.

Entenda como as roupas posicionam e comunicam.

Nesta terça-feira (4), parlamentares do partido democrata, nos Estados Unidos, usaram mais uma vez as roupas para protestarem contra Donald Trump. Desde o primeiro mandato do presidente norte-americano elas têm usado branco quando ele faz um discurso no parlamento. Este ano, porém, usaram rosa. A cor é símbolo da terceira onda do feminismo e coloriu os atos de repúdio à frase “Grab’em by the pussy”, dita por Trump e divulgada pelo The Washington Post um mês antes da eleição de 2016.

Em tempos de proibição de cartazes na Câmara dos Deputados do Brasil, a manifestação norte-americana nos leva a refletir sobre como nossos deputados e deputadas estão usando a própria imagem para gerar “buzz”.

Com a decisão de Hugo Motta (Republicanos-PB), o vestir poderá ser a grande jogada daqueles que desejam seguir “causando”. Afinal, como disse Umberto Eco, a função de cobrir o corpo é apenas 50% do papel da roupa. Todo o resto serve para comunicar.

Não estou falando de usar bonés, nem perucas ou uniformes de doméstica. Seria falta de decoro. O uso do traje passeio completo está previsto no artigo 272 do Regimento Interno da CD e no Ato 63/1980. Manuais especificam que o traje masculino é composto por paletó, calça, camisa, gravata e sapatos de couro. Já o feminino fica em um limbo que determina “bom senso e critério”, conforme o Caderno de Cerimonial, Protocolo e Etiqueta

Essa indefinição talvez seja a primeira grande vantagem de ser mulher na política, porque as deputadas ficam mais livres para usar o vestuário para se comunicar. O que não significa que os homens não possam fazer o mesmo.  

O parlamento dos EUA é cheio de exemplos de como uma boa estratégia de imagem pode pautar o debate público. Após a morte de George Floyd, em 2020, os democratas apresentaram proposta de reforma dos procedimentos policiais usando faixas Kente, típicas de Gana. Basta um google para ver o tamanho da repercussão.

Joe Biden também não passou ileso. Durante discurso do “Union State” em 2024, as republicanas usaram blazers vermelhos e broches escrito “Parem a crise de fronteira de Biden”.

Cada um desses casos só foi possível porque houve uma ação organizada. Se parlamentares do Brasil passarem a usar os símbolos das pautas que levantam de forma estratégica, serão capazes de seguir pautando a imprensa tradicional e o debate nas redes sociais. Agora resta saber se os nobres deputados e deputadas conseguem abrir mão de serem o centro da atenção para planejarem uma ação coordenada.


Deniza Gurgel é consultora, pesquisadora de Comunicação Política do Grupo Informação Pública e Eleições/UnB e palestrante.

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