10/04/2026

Novo Moisés faz do púlpito, palanque

Carlos Moisés da Silva sempre foi um homem de fé. Como político, no entanto, havia mantido até agora os vínculos religiosos de forma discreta e elegante afastados das questões de governo. Algo mudou após o arquivamento do segundo processo de impeachment, quando foi reconduzido ao cargo após um mês afastado.

Logo nos primeiros dias após o julgamento, Moisés participou de um culto da igreja Mais em Cristo, em Tubarão, onde fez um depoimento sobre ser alguém em uma missão – governar os catarinenses – e pediu orações para melhor desempenhar o cargo. A sobrevivência a uma injustiça, caracterizada no processo de impeachment, fazia parte do discurso.

A fala chamou atenção, mas como é inegável que Moisés é um homem de fé, passou ao largo da maior parte das análises políticas. Não é por ser governador que ele deixará de ter o direito de viver sua religião e de vincular os acontecimentos que vive à fé que professa.

No entanto, na semana que passou, Moisés fez mais uma vez um púlpito de palanque – e dessa vez de forma muito mais explícita. Novamente em Tubarão, o governador pediu a palavra em um culto para pedir orações “para que Deus mova a política local”. Disse que mesmo que o governo estadual tenha recursos em caixa, “às vezes há uma má vontade de alguns gestores para que as coisas aconteçam”.

– A gente percebe que aqui, exatamente na minha casa, tem resistências. Talvez seja por uma posição política menor de não fazer as coisas acontecerem. Acredito que se a gente orar e estivermos unidos nisso, Deus pode mover as águas e a gente vai começar a ter as respostas que a gente precisa – disse Moisés.

O governador citou explicitamente obras que envolvem as cidades de Tubarão e Laguna, o que eriçou a política local e fez o discurso/pregação ser entendido como um recado – ou crítica – ao prefeito Joares Ponticelli (Progressistas), de Tubarão. A relação entre eles teve raros – raríssimos – momentos de harmonia nesses dois anos de meio de mandatos compartilhados. 

Em 2019, Ponticelli chegou a estar com um pé no PSL, a convite do então secretário da Casa Civil, Douglas Borba. Foi vetado por Moisés. O troco veio na pandemia, com críticas abertas e televisionadas do prefeito progressista à gestão da crise pelo governo do Estado. O novo episódio, a pregação na Mais em Cristo, aprofunda um fosso que já existia – justamente em um momento em que as relações de Moisés com o Progressistas estão tão sólidas que até uma filiação é cogitada nos bastidores. Rumor que incomoda Ponticelli, pré-candidato do partido a alguma posição majoritária. 

É interessante observar se Moisés vai continuar usando o púlpito para mandar mensagens políticas a adversários e falar bem de seu governo. Desde que viveu um destrambelhado rompimento com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o governador catarinense sofre por não ter uma militância ou uma torcida (adjetivos cada vez mais semelhantes) a defendê-lo nas crises ou durante os ataques de oposição. Nessa lógica, a aproximação com os evangélicos pode caracterizar a busca por um base de apoio fiel – perdoe o trocadilho irresistível, leitor. 

De olho na reeleição, Moisés precisa arregimentar defensores não apenas para ser votado em 2022, mas também para convencer sua base de apoio eventual – os tradicionalíssimos MDB, Progressistas e PSD – de que deve também dar suporte a sua continuidade. Aí a gente pode perceber um viés menos religioso na cutucada que Moisés deu em Ponticelli em meio a um culto. O prefeito de Tubarão é visto no Centro Administrativo – e não apenas lá – como alguém que pode levar o Progressistas para o palanque do eterno adversário Gelson Merisio (PSDB).


Assista ao discurso de Moisés na Mais em Cristo:

 

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